Thursday, September 20, 2007

Esquentamento II : o Tirocínio


Muitos anos antes da chegada do gás natural, estava a falar ao telefone com a S4 quando a Peggy me pediu se eu podia ir à cozinha ver se “o leitinho já estava a ferver”. Pedi desculpa à S4, que ela nunca foi para brincadeiras e, querido quando quero, lá fui espreitar o estado de ebulição da coisa.

Estava, de facto, bem a ferver. O leite, mas também o fogão, o exaustor e a protecção da chaminé. Um espectáculo digno de ser ver. O fascínio hipnótico do fogo é provavelmente universal e as ondas de chamas que percorriam o exaustor, de pernas para o ar, prendiam-me a atenção como só uma mulher nua ou um golo do Benfica o conseguem fazer.

Com esforço, libertei-me do transe e regressei ao telefone: “S4, minha querida, peço-te desculpa mas estou no meio de um incêndio e agora não dá jeito nenhum. Se sobreviver telefono-te mais logo”. Ela riu-se e disse “Até logo, então”.

A calma ficou-se por aí. No lugar dela uma monumental descarga de adrenalina, que me deixou de sentidos exarcebados e coração a palpitar. Resisti ao instinto de sobrevivência animal do “Cada um por si, salve-se quem puder! Ervilha, gajas boas e titulares do Benfica primeiro”. Comecei por evacuar a casa.

Disse à Peggy para desligar o gás lá fora no contador e tirei a saudosa AFN e o TB, na altura ainda catraio, do apartamento. Tudo isto, feito com um pânico controlado exemplar. Enquanto gritava “Fogo! Fogo!” toquei na porta ao lado, onde a Catatua vivia com o PN. Depois de um nanosegundo em que pensaram que eu estava na reinação, ambos ficaram brancos, como a cal proverbial, e de olhos bem abertos como os restantes de nós.

Enquanto as senhoras telefonavam para o 115, eu e o PN fomos tentar minorar os estragos. Claro que embora o prédio fosse moderno e possuísse sistema de combate a incêndios (S.I.), alguém se tinha esquecido de distribuir as chaves pelos condóminos. Depois, mais uns minutos perdidos a arrombar a porta de metal ao pontapé, soco, faca e, finalmente, com uma vassoura que serviu de alavanca. Foi um verdadeiro “arrebenta-te Sésamo”.

Nem extintor vazio, nem fora da validade, nem um resto enferrujado que desse para martelar na cabeça do adminstrador do prédio caso tivéssemos a audácia e a fortuna de o voltar a ver em vida. Entretanto, o fumo negro começava a sair em golfadas intimidatórias pela porta do apartamento e a espalhar-se pelo corredor e pelas escadas.

Depois de decidirmos que não havia tempo para ir arrombar mais portinholas de metal nos andares imediatemente acima ou abaixo, pois arriscávamos que também não houvesse extintores, começamos a desenrolar a pesada mangueira do S.I.. Enquanto isso, instruímos o resto dos intervenientes, para abrirem janelas, vestirem-se com roupas de ir à rua e prepararem-se para descer pela escada de incêndio e, já agora, para abrirem pacotes de leite e arranjarem-me um lenço molhado de modo a eu proteger as vias respiratórias.

Enquanto eu, o herege mor, rezava para que a bomba de água do S.I. estivesse a funcionar, o disjuntor disparou mergulhando o apartamento no mais profundo breu, excepção feita às silhuetas das chamas que dançavam despreocupadas e sensuais.

De mangueira em riste e lenço amarrado à volta da cara aproximei-me do fogo com respeito e humildade. O calor era insuportável, o fumo pesado, sufocante envolvia-me por completo num abraço de morte e as chamas, essas, alheadas do que se passava à volta delas, continuavam a chamar por mim.


Tive medo, muito medo. Os azulejos crepitavam e começaram a saltar das paredes estilhaçando-se em fragmentos múltiplos. Voltei a pensar se seria inteligente da minha parte estar ali. Gritei “Água vem!” para o PN que aguardava pelo meu sinal no corredor.

Nada me podia ter preparado para o ímpeto do jorro de água. Desiquilibrei-me para trás, quase caindo desamparado e acertei os primeiros galões no tecto. Não desarmando, cerrei os dentes e apontei à chamas, afinal de contas não é por “dá cá aquela palha” que tenho amigas que se referem a mim como “O Mangueiras”. O PN chegou em meu auxílio e não se conteve perante a visão dantesca, soltando um chorrilho de palavrões.

Comigo de forcado da cara e o PN de rabejador avançámos destemidos em direcção ao inferno. Infelizmente acertámos numa fritadeira cheia de óleo, que foi projectada em direcção às chamas e verteu algo que, na altura, me pareceu um mar de lava incandescente. Recuámos, mas não nos demos por vencidos. Lá fora, as sirenes dos bombeiros a chegar contribuiam para a sensação de apocalipse iminente.

Indiferentes a tudo, prosseguimos o combate que começava a pender para o nosso lado, quando, de repente, a mangueira deixa de deitar água, fica-me flácida entre mãos, devoluta de vida.

Perco a cabeça, vocifero frases que fariam corar a mais experiente das profissionais da noite e vou, munido de lanterna, ao quarto buscar um cobertor. Agora era pessoal. Mando-me aos já pequenos focos de chamas como gato a bofe, absolutamente tresloucado, como se fosse um desenho animado em fast forward.

No momento em que desfiro a estocada fatal, o golpe de misericórdia, oiço os bombeiros a chegar ao patamar. Uma quietação súbita apodera-se de mim e sinto-me sereno como nunca. Cruzo-me com eles, armados até aos dentes com botijas de oxigénio, capacetes com “luzinhas de mineiro”, extintores, machados e outra parafernália profissional, quando vou a sair. Olham para mim, preto ébano até a medula, um depósito de fuligem ambulante e cumprimentam-me respeitosamente levando a mão direita ao capacete, numa espécie de continência civil e informal.

Nem precisava de leite, nem de palmadinhas nas costas, mas por mais estranho que possa parecer só me apetecia um cigarro, ou dois, ou talvez mesmo três. Substituir o fumo pestilento pelo fumo saboroso. Não tive hipótese de o fazer pois o Comandante dos Bombeiros decidiu que me devia insultar, possivelmente por ter feito o seu trabalho de forma tão abnegada. “São uns irresponsáveis, apagar um incêndio destes com àgua, seus amadores”.

Fui tirado do pé dele pela Peggy, pelo PN, e por mais três vizinhos, dos muitos que entretanto se tinham juntado. Alguns para ajudar, outros para comentar e outros ainda para mirar. Felizmente que o fizeram, pois seria muito estúpido haver uma vítima mortal depois de o incêndio já estar extinto.

O segundo Bombeiro na linha de comando veio ter comigo e disse-me “Não ligue ao chefe, descobriu esta semana que a mulher o engana e está todo fodido de ter subido dez andares a pé, para nada”. Vendo que eu acenava com a cabeça compreensivamente, rematou “Fizeram um excelente trabalho, digno de qualquer bombeiro profissional, os meus parabéns”.

Depois de duas horas de muitas mãos amigas a ajudar, principalmente a secar os 2 ou 3 centímetros de água que se tinham acumulado, o balanço não foi mau de todo. Meia cozinha destruída, os tacos de madeira de dois terços da casa inutilizados e várias carpetes de arraiolos mal tratadas. Perdas de vida: zero. Até as plantas se safaram.

O serão já ia longo, mas ainda tinha algo de importante a fazer. Não se deixa uma Senhora pendurada, em especial se ela for bonita e dona de um mau feitio lendário. Peguei no telefone e marquei o número da S4. “Olá, nem sei se te diga, se te conte, foi um incêndio e peras! Acho que nem vai dar para dormir aqui hoje” Depois de uma breve pausa, a S4 diz incrédula “Mas estavas mesmo a falar a sério?!?!?!? Eu pensei que ias ver futebol na televisão ou qualquer coisa do género...”


Dedico este relato aos Bombeiros Portugueses, muitos deles voluntários, que de uma forma tão válida, embora diferente da minha, passam a vida a bombar. De salientar que incluo neste modesto tributo o Senhor cornudo que estava ao comando nesse dia.

Se me é permitido, e é com certeza pois este blog é meu, gostaria de afirmar publicamente que há dois ou três anos consegui, finalmente, perdoar à Dona L. e ao Sr. M, a porteira e o seu marido respectivamente, por terem cortado a água do S.I. nesse dia porque, e passo a citar: “Pensámos que alguém estava a roubar água para o banho ou assim...”

3 comments:

Poisoned Apple said...

115? És de que geração, meu mangueiras?

Zexorcista said...

"O mangueiras"?! Eh pá, se fosse "O mangueira" eu até pensava que o epíteto era sinal de virilidade, agora no plural!?

Não me parece muito másculo...

:)

Ervilha Escriba said...

Maçã,

Sou da geração do ZX Spectrum, do disco sound, da TV a preto e branco e dos banhos à mangueirada :P

Zexorcista,

Se for uma senhora a manusear as mangueiras não é gay, pois não? :D
Pelos vistos (post: análise de resultados metro gay) aqui o ervilhas é um antro de analidades!

cumprimentos ervilhais

E.