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Wednesday, August 8, 2007

Magoito - Bernadette

Concheira, Praia do Magoito

Naquele tempo era tudo mais simples, era tudo namoro e namoradas. Não havia cá as nomenclaturas complexas da curtição, das recaídas da curte, da curte em série e em paralelo, do relacionamento à séria, do relacionamento mais ou menos, do relacionamento a brincar, das amigas coloridas, de dar um tempo para pensar, da relação aberta, fechada, com uma fresta, das lap dances e dos privados, dos ménages endiabrados, dos amigos de foca e de uma noite em pé. Sempre que tinha a felicidade de conseguir meter a língua dentro da boca de alguma era automaticamente minha namorada. Assunto arrumado, mesmo que só durasse uma semana. É que mais vale uns dias a linguado que uma vida inteira a comer solha.

Bernadette era uma bisarma. Um metro e oitenta e cinco de deleite masturbatório distribuído sem parcimónia por setenta quilograma de peso, seis dos quais adjudicados às glândulas mamárias. Mais tarde descobri que tinha umas aréolas gigantes, intimidatórias, que pareciam ovos estrelados. E pensar que eu estava constatemente a ser zombado pela rapaziada devido ao meu estilo de ponta-de-lança a posicionar-me sempre “à mama”; agora é que iriam ser elas.

Era luso-descendente mas há muito “afrancesada” e fazia parar o trânsito com sua pronúncia arranhada. Tinha os cabelos loiros cortados muito curtos, uma novidade na altura, o que só adicionava interesse à escultural criatura. A sobrancelha era bem mais escura e do sovaco nem se fala, devia gastar em gillettes todos os francos que poupava. A única coisa que era pequena nela eram as mãos que ostentavam umas unhas sempre impecavelmente arranjadas. Quando se ria punha a mão à frente da boca. Não sei porquê, pois tinha uma boca bonita repleta de dentes certinhos.

Miss Magoito desse ano, por unanimidade e com distinção, era o alvo almejado por todo e qualquer maganão. Como tantas vezes acontece, o nosso encontro foi fruto do acaso. Não tinha dado por ela até ao momento em que lhe acertei com uma bolada em cheio na coxa. Fui lá para recuperar a bola e pedir desculpas fingidas, pois jogar futebol, mesmo na praia, toma precedência sobre qualquer outra actividade, sem excepção. Estava furibunda e com razão. Enquanto os restantes jogadores assobiavam e gritavam coisas como: “Mendel dá-lhe um beijinho, façam as pazes”, eu sugeri-lhe ficar de castigo sentado ao lado dela e não tocar mais na bola nesse dia. Fez um esforço meritório para não sorrir com tão despropositada oferta mas os cantos dos seus lábios trairam-na. Nesse preciso momento ocorreu-me, pela primeira vez, se me iria sair a sorte grande. Bernadette tinha dezoito anos, mais três do que eu, e a minha cabeça dava-lhe pelo ombro, mas não seria por essas ninharias que eu iria deixar de tentar.

No dia seguinte levei-lhe pomada “Hirudoid” para hematomas e estendi a toalha paralela à dela. Entre a nódoa negra e jurar, por todos os santos, que tinha um curso de enfermagem pelo que seria melhor ser eu a aplicar o medicamento, a conversa desbloqueou. Perguntei se lhe podia chamar “Bé”, ela foi a primeira pessoa a chamar-me “Ervi”. Na realidade, como ela era de “Párrí” pronunciava “Hérrví” o que me agradava sobremaneira.

O namorico floresceu com rapidez, primeiro sob a vigilância apertada da mãe e da tia, chaperons profissionais, depois com a inevitável emancipação de duas pessoas que queriam estar sózinhas e longe de olhares indiscretos. Começámos a dar longos passeios, de mão dada, pela praia, para além da concheira, pequena piscina natural no meio das rochas aquando da maré baixa, e habituámo-nos ao massacre diário de bocas foleiras (“Mendel, larga o osso que também sou cão”, “Lá vai o Lingrinhas e a Amazona”, “Puto, queres um escadote?”, “Precisas de ajuda para dar conta do recado?”) e da imensa curiosidade que despertávamos. Curiosamente, Goikoetxea era das poucas pessoas com quem convíviamos enquanto casal. Tinha-lhe apresentado a Bé, que ia morrendo a rir com a versão dele dos acontecimentos do inesquecível jogo de futebol do Verão transacto.

A Bé não iria ser neurocirugiã, mas também não era o estereótipo da loira burra. Era muito boa companhia, meiga, divertida e até, bastante introvertida. Beijámo-nos pela primeira vez dentro de água. Foi terno, salgado, anfíbio, molhado, salivado e demorado. As coisas evoluiram com naturalidade e às tantas, mal a família dela se ia embora por volta das cinco, já passávamos os fins de tarde dentro da barraca com o toldo fechado numa pouca vergonha que nem me atrevo a iniciar descrever. Eu próprio, tantos anos depois, começo a corar só de pensar nisso.

Nunca vi o meu pai tão orgulhoso de mim como nesse Verão. Nem mesmo quando, por exemplo, anos mais tarde, na mesma praia, salvei a vida a três pessoas durante as marés vivas de Setembro, enquanto o nadador salvador alegava estar a fazer a digestão. Esse Verão foi mesmo especial, a Bébé dos meus quinze anos, a minha “Bé Derek” francesinha. Não que o meu pai não tivesse razão para tanto orgulho. Fiquei com as costas muito mais bronzeadas do que a frente pois tinha de estar imenso tempo de barriga para baixo na areia, por razões óbvias. Mesmo quando me deslocava tinha de andar sempre de toalha, pois havia uma palmeira no meu fato de banho que insistia em destacar-se das outras. Fiquei com os pés todos queimados de acompanhar a Bé descalça, asfalto fora, nos três quilómetros e meio que separavam a praia de casa dela. E fiz ainda, o sacrifício inacreditável, de não jogar mais à bola nessas férias. Mas valeu a pena, afinal de contas outros valores se alevantavam...

O final anunciado deste namoro estival foi ainda mais dramático do que eu, na infinita sabedoria dos meus quinze anos, tinha antecipado. Três dias antes de voltar para França a Bé disse-me que estava atrasada. Eu fiz as perguntas normais que um homem adulto faria “Quantos dias?”,“Tens a certeza?”,”Como é que isso aconteceu?”,”O que queres fazer? Abortar, não é?” e a Bé foi-se embora a horas, mas ainda atrasada e de coração partido. Não quis a minha morada, telefone, nada. Também não me deu os dados dela. Parecia que no fim sempre era verdade, que ela era areia demais para a minha furgoneta.

*****

Aquando dos recentes distúrbios nos subúrbios de Paris apanhei na televisão uma entrevista com um jovem encapuçado que dava azo à sua raiva queimando viaturas e espalhando o conteúdo de caixotes do lixo pela via pública. Quando lhe pediram um nome, para pôr em rodapé na reportagem, ele escolheu um muito fictício “Hérvi”...

Fotografia: teriosaurus@flickr

Monday, August 6, 2007

Magoito - David


Magoito, Tojeira, Bolembre e Arneiro. As quatro aldeias que formam o clube desportivo M.T.B.A. Foi naquele campo de futebol de 11 que vi os Xutos & Pontapés ao vivo pela primeira de muitas vezes. A meio da segunda música o gerador foi para o galheiro e durante largos minutos parecia que o concerto iria ser cancelado. Desesperado, gritei para o palco: "Toquem mesmo assim, que nós não fazemos barulho!". Dito e feito, foi mesmo à luz da vela, com mil e quinhentas almas em silêncio absoluto, como se de um concerto de música erudita se tratasse e com o Tim a dar tudo por tudo para que a sua voz sem aplificação chegasse até à outra grande área. Quanto a mim, tinha acabado de inventar o conceito contemporâneo de Unplugged . Não registei a patente, mas nunca me arrependi. O dinheiro sempre me trouxe problemas e, de qualquer forma, não haveria suficiente no mundo para (a)pagar a memória daqueles momentos.

Foi também naquele rectângulo pelado mágico que me transfigurei de homem em homem de barba rija. Jogar contra assassinos profissionais federados, veteranos da 3ª Divisão Nacional e da 1ª Distrital de Lisboa, e sobreviver, não é pêra doce. Duros, intratáveis e com afeição especial por jovens emergentes com sangue na guelra como eu. Especialmente como eu, um rato de área cerebral, traiçoeiro, oportunista, frio e pior que isso, citadino, educado e com fair-play.

No jogo decisivo para a atribuição do primeiro lugar partíamos em desvantagem. Ao adversário bastava-lhe o empate. Nem dormi muito bem na noite anterior ao encontro pois sabia que iria ser marcado, homem a homem, pelo Goikoetxea. Nunca soube o seu nome verdadeiro mas a alcunha assentava-lhe que nem uma luva pois o Goikoetxea original era o basco que de forma selvática havia partido a perna ao Maradona. Este meu antagonista não lhe ficava atrás, antes pelo contrário. No seu currículo tinha duas pernas, dois traumatismos cranianos e três narizes. Tinha em duas ocasiões, durante a sua já longa carreira, sido o jogador mais violento de todas as divisões nacionais e detinha o recorde absoluto de cartões vermelhos numa só época, nada mais, nada menos que oito.

Logo no primeiro minuto de jogo recebo a bola junto à linha lateral e quando me preparo para rodopiar em direcção ao meio campo adversário sou ceifado com uma violência inusitada. Entrada, por trás, a pés juntos, mesmo à “f da p”, a rasgar tecido de forma não figurativa. Admoestação verbal do franzino árbitro a que Goikoetxea confidencia com uma honestidade brutal “Sôr árbitro, hoje o puto tá fodido, vai sair em maca”. Depois de ser pulverizado com um daqueles sprays milagrosos que cheiravam a Raid Casa e Plantas (na altura tinhamos de os ir comprar a Badajoz), regresso às quatro linhas a coxear, enquanto o Mister me grita “Mendel, não desanima, pra cima deles, pra cima deles!”

Na primeira parte não toquei mais bola. Para compensar, o Goikoetxea “tocou-me” em quatro ocasiões, com destaque para uma apertadela de tomates na confusão da área durante a marcação de um pontapé de canto e para uma cotovelada à “paulinho santos” que me abriu o sobrolho direito. Ao intervalo perdíamos por um a zero. Livre directo com o a bola a desviar na barreira e a trair, sem apelo, o nosso guardião, o castiço Mário da Terrugem.

No balneário delineámos uma nova estratégia para a segunda metade. Eu deveria vir buscar jogo mais atrás de forma a atrair o Goikoetxea para o nosso meio campo e de seguida, como era muito mais rápido, lançar-me num contra ataque fulgurante. Basicamente, eu fazia de isco, ele era o tubarão.

Aos 72 minutos, o nosso plano deu frutos. Vi os pitons em riste, do distribuidor de fruta mor, a aproximarem-se vertiginosamente, mas consegui evitá-los e tabelar com o Quim Zé que me desmarcou de forma prodigiosa sobre a meia direita. Enquanto corria desalmadamente em direcção à baliza contrária ainda o ouvi gritar para o outro defesa central “afinfa nesse cabrão”, mas era tarde demais. À saída do guarda-redes contrário piquei-lhe a bola por cima e repus a igualdade no marcador.

Nunca comemorava os golos. Achava má educação para com os adversários. Não me importava que os meus companheiros o fizessem e inclusive me saltassem para cima, puxassem o cabelo, me dessem caldos e palmadas no rabo e gritassem que nem loucos possuídos pelo demónio. Eu não o fazia, assim como não me queixava das faltas que sofria, nunca falava com adversários e muito menos com os árbitros. Era exemplar.

Nos minutos que se seguiram houve muito pouco futebol, muitas faltas e muitos jogadores adversários a rebolarem pelo chão como se tivessem sido atropelados por uma retro-escavadora. O resultado servia-lhes, a nós não. No primeiro minuto dos descontos, canto a nosso favor. Os meus dois defesas centrais tentam em vão blocar a marcação que Goikoetxea exerce sobre mim, mas nada feito. O tipo é uma lapa, agarra, puxa e, às vezes, até cospe. Tem um cabedal tão impressionante, estampa física como agora se diz, que se fosse forcado os toiros fugiam dele. Tenho a certeza.

O canto é marcado mas o árbitro apita e manda repetir, pois a pouca vergonha de puxões, empurrões e agarranços é demais até mesmo para ele. Quando consigo soltar-me da gravata que me imobilizava, viro-me para o meu Némesis e digo: “Goikoetxea!”. Ele fica pasmado, boquiaberto de me ouvir proferir palavra e responde “Sim?”. Eu sorrio de forma irreverente e sacrifico-me pela equipa: “A tua mãe faz um grande bóbó!”

Acordo no balneário com o meu pai, o massagista Roldão e o Mister a olharem para mim com preocupação. “O que aconteceu, ganhámos?” Explicam-me que levei um soco certeiro do Mike Tyson Sintrense e que perdi os sentidos e dois dentes. Sururu gigantesco, jogo interrompido durante vários minutos, Goikoetxea expulso, grande penalidade a nosso favor convertida à “Panenka” pelo Quim Zé, bola ao centro, final da partida. Éramos campeões!

*****

Não sinto particular orgulho no que fiz, mas fi-lo pelos meus companheiros de equipa e voltaria a fazê-lo hoje. Brilham-me os olhos sempre que entro bienalmente, ou coisa que o valha, no Café Clementina e vejo a foto da nossa equipa na parede. Sou uma lenda viva naquela terra, podia até ser Nobel da Paz que para aquela gente continuaria eternamente a ser o Mendel David que numa tarde quente de Julho derrotou o Goikoetxea Golias com mestria e arte. Ainda hoje, este facto, traz-me um conforto e uma paz de espírito que eu não consigo explicar.

Friday, August 3, 2007

Magoito - Homem


Passei os Verões da minha adolescência numa aldeia próxima do Magoito, pequena localidade estival a sul da Ericeira e próxima de Sintra. Facto pouco conhecido, ou talvez seja mesmo um mito campestre, é que Salazar tinha lá uma casa de férias, que ainda existe, completa com uma pequena capela e tudo.

Para um rapazote citadino como eu, o contraste não podia ser maior. A princípio parecia que no Magoito não havia nada para fazer e que a estranha decisão dos meus pais em abandonarem o Algarve e o sul de Espanha em favor do enfado saloio era uma crueldade absolutamente desnecessária. Era o meu Gulag, numa altura em que nem sabia que os Gulags existiam.

A coisa mais emocionante que por lá havia era um casal que vivia junto sem ser casado. Pensei que iria passar o Verão à beira estrada a contar os tractores a circular devagar, mas a pouco e pouco comecei a adaptar-me e a descobrir os prazeres do campo.

Após um workshop instantâneo, com uns moços nativos, aprendi a “andar à chinchada”. Não se trata de um passo de dança, mas sim de pequenos furtos de fruta, em especial, uvas e melancia. De quando em vez, quando o dono do terreno visado dava pela nossa presença, a coisa tornava-se deveras emocionante. Não era preciso bungee jumping, aquilo dava uma descarga de adrenalina pura e dura e nem era muito perigoso. O pior que aconteceu foi o “Ti” Tomás ter partido a cabeça do Afonso com o cabo de uma enxada. O Afonso chorou que nem uma Madalena, mas nem precisou de levar pontos. Numa idade em que o número de pontos era directamente proporcional à importância social da pessoa, escusado será dizer que nunca mais falámos com o Afonso. Anos mais tarde encontrei-o já toxicodepente e fiquei a matutar se, de alguma forma, poderia ter uma quota parte de responsabilidade no sucedido.

Foi lá que amei a minha primeira bicicleta “pasteleira”. Usava-a para ir a todo lado, éramos inseparáveis e até lhe chamava “A Tornado” pois na altura era um admirador incondicional do Zorro. Chegava a fazer os 7 quilómetros que me separavam de Sintra só para ir até às traseiras da Piriquita e esperar que me dessem travesseiros, quentinhos e grátis. Uma vez que não tinha licença, passava a vida a fugir à GNR. Tive muita sorte em nunca ser apanhado, as estórias de horror de sevícias às mãos destes agentes da autoridade abundavam e eu não quereria descobrir da forma mais dolorosa se eram, ou não, verdadeiras.

Outro grande amor foi a espingarda de pressão de ar que o meu avô materno me emprestou para sempre. A fiel “Flóber” como ele lhe chamava. Com ela chacinava candeeiros públicos, garrafas vazias e latas de coca-cola. Com ela fui à minha primeira “caçada” em grupo. Depois de horas de espera por pardais mais inteligentes do que todos nós em conjunto, desconfortavelmente sentados em pedras e parcamente camuflados pela vegetação natural, o Mané aborreceu-se e desatou aos tiros ao Zico por este ter tossido. O Pipo entusiasmou-se com a coisa e foi um festival de chumbinhos a zunir no pinhal.

Foi nesse dia que me fiz um homem. Levei um tiro à queima-roupa na coxa direita que graças à ganga não penetrou a carne. Doeu-me como o caralho. Não há outra palavra, vernácula ou não, para descrever o dilacerente contacto entre a minha pele de menino bem e o pequeno projéctil voador. Eu, que já tinha sido circuncidado a sangue frio, dois anos antes, e que achava conseguir suportar todo o tipo de dor física possível e imaginária, tive de cerrar os dentes até não sentir o maxilar, fechar os punhos cravando as unhas nas palmas das mãos e suster a respiração durante largos segundos, para logo de seguida libertar o “AAAHHHH!!” mais aterrador que alguma vez ouvi da vida, que à falta de melhor, teve o condão de assustar todos os pardais num raio de um quilómetro, e não eram poucos.

Depois, não tugi nem mugi. Contive as lágrimas e olhei para o Mané, o atirador fortuito, que tremia que nem varas verdes e choramingava “Mendel, por favor, não contes ao meu pai, desculpa, desculpa, não lhe contes, não lhe vais contar, pois não?”. Nem lhe respondi, virei as costas, entreguei a minha Flóber ao Zico com instruções para zelar por ela como se da sua própria vida se tratasse e arrastei-me de perna às costas, durante três longos quilómetros e meio de caminhos de cabras ladeados por muros de pedras manualmente empilhadas, até São João das Lampas onde ficava a farmácia mais próxima.

No dia seguinte era o líder do grupo. Sem ter tido de levar um único ponto mas com a enorme vantagem de ser a única pessoa no mundo que eles conheciam que já tinha levado um tiro. A minha primeira medida foi escorraçar o Mané, não por me ter dado um tiro, nem sequer por ter desatado a chorar, mas por se ter preocupado em primeiro lugar com as consequências que o evento teria para ele, em detrimento do meu estado de saúde. Isso e ter, sequer, colocado a possibilidade de eu poder ser um bufo, um chibo, um queixinhas da pior espécie. Até aí éramos irmãos, tínhamos cortado dedos e feito um juramento sagrado com gotas de sangue. A partir daí nunca mais lhe falei.

*****

Em míudo cruzei-me, posteriormente, várias vezes com ele naqueles arrabaldes de nenhures; fixava-o sempre nos olhos, mas nada tinha a dizer. Em adulto não tornei a encontrá-lo em carne e osso, embora o veja ciclicamente na televisão pois é admnistrador de uma grande empresa do ramo dos vinhos. Como a minha mãe sempre me disse: “A classe não se compra, ou se tem ou nada a fazer”. Tens toda a razão mamã. E digo-te mais: “Os colhões no sítio também não, ou estão lá, ou podes esquecer”.

Fotografia da Praia do Magoito: João Domingues