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Thursday, August 9, 2007

O Ginásio VIII – A Passadeira


Às vezes penso que sou descendente do Nostradamus ou pelo menos primo afastado do Zandinga. Tenho um instinto de prever situações embaraçosas muito antes de elas acontecerem. Acerto quase sempre no verbo e no adjectivo, só falho o sujeito (Nota do Editor: alguém se lembra do predicado? Será que ainda existe? E dos advérbios de modo? Já não são “fashion”? E os favoritos do Ervi, os verbos copulativos? Por onde andam?).

Entrei no ginásio todo lampeiro, com uma andar gingão à Chico Fininho e de sonar ligado na potência máxima. Dei logo pela Martina, já a transpirar profusamente, numa das passadeiras centrais. Para não parecer que sou fácil, como essas ervilhas que andam por aí que vão com tudo o que lhes aparece à frente, perdi para aí um minuto e trinta e sete segundos a beber água, a pesar-me e a ir buscar o meu plano de treino. Depois já não aguentei mais.

Fui para ao pé dela e acenei-lhe com a cabeça. Estas coisas a pouco e pouco tem muito mais piada. Tem é que se estar a pau para que não apareça nenhum Pepe Rápido e a leve embora mesmo de debaixo do nosso nariz, pois isso causa dores insuportáveis nos cotovelos e é uma lesão que dá para meses de psicoterapia fisiátrica.

Pousei a toalha, como toda a gente faz, num dos braços de apoio lateral da passadeira. Estar fisicamente tão próximo dela fazia com que a minha pulsação em repouso atingisse os 125 batimentos por minuto. Se fosse um estilo musical seria house/ trance, mas como sou português de gema seria um Zé Pereira com o seu tambor a rufar furiosamente enquanto curtia a trip de anfetaminas.

Mesmo a suar como se tivesse adormecido na sauna, Martina cheirava divinalmente. Estar apaixonado tem, de facto, de ter uma componente patológica. Que outra explicação existe para se apreciar o odor corporal de uma pessoa com quem nunca sequer se falou? Só se forem as míticas feromonas. Tudo é possível para alguém que até aos doze anos creu que havia glutões nas embalagens de detergente Presto. Porque não? Existirem ervilhas albinas é mais difícil de acreditar e, no entanto, aqui estou eu.

Escolhi um programa de velocidade e inclinação médias e comecei a andar. Ligo sempre a ventoinha uma vez que gosto da falsa sensação de estar a exercitar-me ao ar livre que isso me dá. Quando iniciei a corrida, a passadeira começou a balançar suavemente mas eu nem liguei pois, além do mais, a do outro lado de Martina já estava ocupada por uma senhora de idade que era igualzinha à Cruella de Vil dos 101 Dálmatas.

Enquanto me esforçava para ter a elegância de gazela do Francis Obirah Obikwelu ia deitando o olho à Martina. Não em demasia pois isso seria falta de tacto e também porque tinha medo de ficar com uma erecção e estragar o Discman.

Subitamente a passadeira balançou com tal violência que até parecia estar em pé num barco a remos do lago jardim do Campo Grande. Ao desiquilibrar-me procurei apoio nos braços laterais, o que consegui, mas fazendo com que a toalha caísse no processo. Toalha essa que foi, naturalmente, levada para trás e num acontecimento só possível na vida real ficou encravada na zona onde o tapete dá a volta sob si mesmo.

Esta sequência de eventos fez com que um estridente alarme sonoro disparasse, com que a passadeira parasse de forma instantânea e com que eu, ao ter continuado a correr, desse uma feroz cabeçada no painel frontal e caísse, de seguida, desamparado de costas e a sangrar do nariz.

A minha camponesa de leste veio logo em meu auxílio, tal e qual um São Bernardo Alpino dos desenhos animados, e perguntou-me com genuína consternação: “Você se machucou, cara?”. E a Polónia que era aqui tão perto para ir visitar os sogros. Eu até já tinha fantasiado casar com ela de grinalda na Catedral de Cracóvia, local onde o santíssimo padre João Paulo II considerou ser sepultado.

Tuesday, July 31, 2007

O Ginásio VII – A Ceifeira Polaca


Tudo corria sobre rodas. Muitas das pessoas fitavam-me com um misto de curiosidade e apreensão devido aos eventos sensacionais das pretéritas semanas e houve uma vez em que uma mãe tentou, em vão, impedir que o filho desdentado apontasse na minha direcção e gritasse “Ervilha Malvina”, mas, de forma geral, sentia-me bem integrado no Hormone Club.

Sim, já tinha chegado a uma conclusão definitiva sobre o que é que aquilo, na realidade, era: um local de eleição para o engate. É que mais parecia uma convenção agrícola tal era o número de ceifeiras debulhadoras a operar continuamente. Homens e mulheres, com especial destaque para os personal trainers masculinos. A falta de subtileza da coisa bradava aos céus, mas ninguém se parecia incomodar com isso.

Não querendo fazer o papel de virgem ofendida, pois eu bem sei o que me motivou a inscrever-me no ginásio e não foi, de todo, para fazer pesquisa académica para a minha monografia em ervilhologia antropológica que ando a escrever há anos a fio, mas tem de haver limites para tudo. Ora bolas, eu sou o cliente, estou a pagar um serviço (bem, neste caso, nem por isso, mas tive despesas legais) e exijo que os monitores “musco-lentos” não sejam meus competidores. É uma injustiça e uma falta de ética imperdoável da parte deles.

Além disso, há dias em que tenho prazer genuíno no exercício físico. Mente sã em corpo são dava um belo “refrã” para uma linda canção. Não passo cem por cento do meu tempo a pensar em “forniquiquices”. Até descobri as Endorfinas, essas “gandas” malucas, que me ajudaram, e de que maneira, a reduzir a medicação farmacológica.

*****

Já diz o provérbio que “Se a Mamífera está ausente, foca-te na Passarinha presente”. E todos sabemos que a melhor maneira de afogar mágoas é arranjar alguém para as afagar por nós. Como tal vou-me pôr a jeito e ver o que acontece. E lembrar-me a tempo de não largar, nem bombas atómicas, nem sequer granadas de explosivos tradicionais. Ervilha, the Nobel Peace Prize Winner.

Para aperitivo há uma míuda que eu baptizei de Martina Bianca que me parece muito promissora. Martina, pois apresenta algumas semelhanças de cara com a tenista Martina Hingis e Bianca porque tem uma pele muito clarinha com penugem aloirada, que eu estou ansioso por tocar, mesmo que seja só de raspão. A um metro de distância parece-me muito macia, bem-cheirosa e acolhedora. Tanto a pele como a dona.

Martina está sempre a vir para a passadeira ou para a máquina elíptica ao lado da minha, mesmo quando todas as outras estão vagas. Tem um ar de camponesa polaca delicioso e umas bochechas rosa que conseguem, devido ao esforço físico intenso, ficar absolutamente ruborizadas e com um aspecto pós-coital de se perder a cabeça, em que só apetece dar beijinhos e lambidelas. Tem maminha pequena e rabito avantajado, uma silhueta que mais parece do Brasil do que da Europa de Leste. Já a apanhei várias vezes a controlar-me através do reflexo dos espelhos e dos vidros e apesar de nunca termos trocado uma palavra, passamos a vida a sorrir um para o outro feitos parvos.

A única coisa que me desagradou nela, até agora, é o facto de estar sempre de telemóvel na mão a teclar furiosamente. Ora, como é do conhecimento geral, as mulheres são capazes de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas devia haver um número máximo previamente estipulado. Entre andar na passadeira, limpar o suor da parte de trás do pescoço (gosto muito dessa parte), ouvir o i-pod, olhar para o flatscreen onde passa a Júlia Pinheiro ou a Rita Ferro Rodrigues, dactilografar no telemóvel 300 caracteres por minuto e deitar-me o olho discretamente todos os 30 segundos, algo de desastroso irá eventualmente acontecer. O que vale é que eu estarei lá para a agarrar. Ervilha, the Knight in Shinning Armour.

Tuesday, July 17, 2007

O Ginásio VI - The Dark Side of the Force


A oitava maravilha do mundo meteu baixa e foi de férias para parte incerta. Sem a Mamífera o ginásio não é o mesmo. As cores esmorecem, os músculos doem, a alma chora. Nem as pequenas coisas, como quando descobri o “Higienizador de tampo de sanita” na casa de banho dos deficientes, me alegram. Nem o mais tímido dos sorrisos quando constatei que o “solário de luz natural” era um terraço ao ar livre.

As pessoas mais próximas dizem-me que estou com mau aspecto, que preciso de apanhar sol. Que estou com “cor de ervilha quando foge”. Tento explicar que sou albino. Garantem-me que sou português e que,como tal, com o protector solar adequado, “um solzinho não faz mal a ninguém”. Eu só penso em comprar postais foleiros que digam “I’m Sorry” em sete línguas diferentes, em enchê-la de chocolates e flores, serenatas de amores e vestidos às cores.

A culpa não mata mas mói. E eu tenho um grande dói-dói.

Certo dia, recebo a conta do Dr. Domingos de Rãs, e com ela uma nota que diz “És um mouro porreiro, força na berga que mamíferas há muitas! E não te esqueças que cada uma delas bem cum par!”. Este homem é uma força da Natureza. Se não existisse teria de ser inventado. É a prova viva de que a realidade ultrapassa sempre a ficção. As suas palavras têm o condão de me espevitar. É hora de arregaçar as mangas e tornar à luta. When the going gets tough, Ervilha gets going!

Diz o velho adágio que “se não os podes vencer, junta-te a eles” e eu estou pronto para abraçar o “dark side of the force”. Começo pelo equipamento. Vou à Sport Zone e selecciono um sem número de peças de roupa similares às que o povo usa. Ainda olho de soslaio para uns ténis pretos mas começa-me a doer o estomâgo. Vou para os provadores e digo ao senhor segurança que são 27 peças, ele olha-me com desconfiança, mas lá acaba por se resignar. Afinal as mulheres não são fúteis de todo, isto é muito divertido!

Enquanto me miro no espelho, em posições pouco dignas para conseguir ver como os calções me ficam no rabo, entra um casal para o provador ao lado. Estão muito animados e, ao que parece, a provar fatos de banho. No sistema sonoro uma voz indolente e nasalada avisa: “Srs. Clientes só é permitida uma pessoa por cubínculo”. Assim mesmo, “cubínculo”. Os meus vizinhos de ocasião parecem completamente alheados deste facto, ou provavelmente, também não fazem a mínima ideia do que será um cubínculo. A voz feminina diz “esse não, ficas com um grande chumaço”. Risadas. “Hum, esse fica-te mesmo a matar, era já aqui!” opina a voz mais grave. Mais Gargalhadas. Isto é mesmo divertido! Definitivamente a repetir!

Muito entusiasmado com a minha inolvidável estreia como voyeur audio, opto por uns calções Nike, umas bermudas Reebook, uns corsários Adidas, duas t-shirts de manga cava Sport Zone e dois polos Lacoste. Na caixa, quando me apercebo do preço dos dois últimos, quase tenho um ataque catatónico neuro-vegetativo mas tenho vergonha de dizer seja o que for. Que se lixe, a tatuagem vai-me doer ainda mais.

A seguir vou ver dos i-pods, mas perco a coragem a meio. São muito caros e efeminados. Só uma mariposa ou um nerd é que usava isto, um daqueles geeks do pior que deixa comentários anónimos nos blogs dos próprios familiares. Decido confiar a tarefa ao meu velho e fiel Discman. Se a menina pensava que o namorado ficava com um grande chumaço devia era ver-me de Discman dentro dos calções no meio do ginásio...

Não vou entrar em pormenores em relação à tatuagem. Basta saberem que tenho mais medo de agulhas do que de aviões, que desmaiei durante o processo, que a Dona Cristina, enfermeira diplomada, largou o seu almoço no McDonald’s a meio só para me vir acudir e que, no presente, sou o orgulhoso ostentador de uma tribal incompleta no braço direito. Com a ajuda de Deus, há-de chegar. Pelo menos é diferente. Ervilha, o original acidental.

Estou pronto para me metamorfosear num deles, só me falta aperfeiçoar o dialecto local. A partir de agora vou ao treino, faço 30 de elíptica na zona cardio, trabalho os oblíquos, os diagonais e os perpendiculares, distribuo hi-fives e low-fives, bebo cocktails de red bull, isostar e diet coke e passo a contemplar-me lascivamente ao espelho durante dez minutos após cada exercício. Garanto-vos que vai ser cada tiro, cada melro. Mas não se preocupem que eu prometo que não vou descurar a caça grossa...

Friday, July 13, 2007

O Ginásio V – Ervilha, o Maquinador Maquiavélico


A bomba atómica não caíu nada bem, falhou o alvo e o objectivo de forma espectacular. Diria mesmo, de forma nuclear. A Mamífera ficou completamente lívida a princípio mas depois percorreu todo o espectro de cores até atingir o roxo-raiva. Balbuciou “seu porco nojento” e zarpou a todo gás em direcção aos balneários.
Eu pensei que amanhã seria outro dia e, confesso, ainda tive a presença de espírito para lhe olhar para o traseiro saltitante enquanto se afastava a galope.

Os dias subsequentes foram bastante angustiantes. Foi-me instaurado um processo disciplinar por assédio sexual e interferência no normal funcionamento do health club e vi-me suspenso de toda a prática desportiva. Achei bastante injusto. Por estupidez, má-criação ou inoportunismo (neologismo ervilha) ainda vá que não fosse, agora assédio, vai lá vai.

Como tenho as ervilhas no sítio optei por dar luta e fazer uma pega de caras. Estes assuntos não se resolvem de cernelha. Para isso precisava de pelo menos mais um forcado. Encontrei-o sob a forma de um advogado misógino que sustentava quatro ex-mulheres e seis filhos e meio (havia um teste de paternidade ainda pendente) e que dava pelo nome de Domingos de Rãs. Era bruto, rude, com uma pronúncia nortenha cerrada, dizia palavrões como se não houvesse amanhã e era mesmo aquilo que eu necessitava.

No dia do inquérito formal, o Dr. de Rãs, que apareceu com uma gravata do Dalai Lama, pôs-me um braço por cima dos ombros e disse-me: “Sr. Erbilha, não se apoquente carago, quando eu acabar de fo**-los vão tar semanas sem conseguir andar”. Perante tal demonstração inequívoca de confiança anuí sorrindo e entrei na sala de cabeça erguida e peito aberto. Tivesse penas nas costas e mais pareceria um pavão do que uma ervilha.

Não vos vou aborrecer com os detalhes legais mas asseguro-vos que me portei como um homem. Um Homem com “H” grande, ou seja, neguei, menti, omiti e voltei a negar. Jurei a pés juntos que tinha perguntado “Estás melindrada?”, “Que nunca falara do período com ninguém à excepção dos anos de liceu onde significava trimestre ” e que “era vítima de um mal-entendido de proporções épicas”.

Enquanto isso o Dr. de Rãs, Rei dos decibéis, vociferava que iria processar toda a gente na sala, seus familiares, amigos, animais de estimação e lojas de comércio tradicional existentes nas respectivas áreas de domicílio. Era bastante gráfico e pormenorizado nas suas ameaças explicitando com clareza a interacção que pretendia efectuar com os processos judiciais e o esfíncter dos presentes.

Às páginas tantas, a Mamífera vai-se abaixo e desata a chorar baba e ranho. É de tal modo confrangedor que o Iceberg de Rãs lhe oferece a gravata do Dalai Lama para ela se assoar e recompor, ao mesmo tempo que recua na sua intenção de processar os animais domésticos, mantendo no entanto a ameaça para o gado bovino e caprino.

Eu fico para morrer, com os ventrículos e aurículas murchos que nem uma passa e passa-me pela cabeça pôr cobro aquela situação de imediato. Felizmente, esse momento de decência e lucidez esvai-se de forma quase tão célere como tinha surgido e quando dou por mim já o Dr. de Rãs assegurou frequência gratuita vitalícia do health club, toalhas à discrição, desvinculação da obrigatoriedade de eu publicitar o ginásio e um pedido de desculpas públicas por escrito afixado à entrada das instalações por um período (lá está!) nunca inferior a seis meses.

Foi uma vitória amarga, do chico-espertismo e da força bruta. Acredito que estou a escrever direito por linhas tortas e que um dia quando estivermos a entoar cânticos de Natal à lareira rodeados pelos filhos e pelos netos nada disto terá importância. Até lá, a luta continua, hei-de ver a Mamífera nua.

Sunday, June 24, 2007

O Ginásio IV – O Plano



Tinha delineado cuidadosamente o meu plano de sedução. Ervilha, o Leguminoso Misterioso. Primeiro tinha de me pôr em melhor forma. Não queria fazer figuras demasiado tristes aquando das aulas individuais com a Mamífera. Ofegar ao pé dela sim, mas para já não!

Tinha de me metamorfosear numa novel criatura, 50% ervilha macho alfa, 50% ervilha metrossexual. Tirar o cotão do umbigo, feito. Aparar pelos do nariz, feito. Limpar as unhas, feito. Tirar cera das colmeias auditivas, feito.

Pôr perfume, não! Elas gostam de nós a cheirar à homem, como tal é fulcral nunca descurar a regra olfactiva da santíssima trindade: suor, cerveja e tabaco. “Pelo nariz morre a Mamífera”; isto tem a vantagem adicional de eliminar a possibilidade de nos sair uma ranhosa na rifa.

Depilar-me, não e não. A menos que tenham arbustos a crescer-vos nos ombros e/ou uma densa floresta onde vivam animais de pequeno porte. Lembrem-se sempre que somos primatas, selvagens e imprevisíveis. Alisar o pêlo, fazer cafuné e tirar pontos negros são excelentes actividades pós-coitais a menos que tenham sono, precisem de comer uma pizza, haja bola ou queiram repetir a dose.

Mudar de visual, Wroooong! Faux pas monumental! Depois de conhecerem alguém deixem-se estar sossegadinhos. A primeira impressão já está, nada a fazer. Não se ponham a mudar de óculos para lentes, de t-shirt para gravata, de flip-flops para “sapatinhos à foda-se”. Não entrem em crises existênciais e/ou de meia idade e se ponham a fazer tatuagens e piercings. Dêem sempre a impressão do “eu cá sou bom, sou muito bom, sou o maior” e “I don’t care how I look (but I have been known to shower on occasion)”.
Aproveitem-se do facto de as fêmeas mamíferas serem muito menos imaturas, superficiais e visualmente estimuláveis do que nós. Acham-se feios, gordos e mal-enjorcados? Garanto-vos que isso é irrelevante. Se estiverem com falta de confiança, fechem os olhos, respirem pelo abdómen e repitam em transe: “Carrilho tem Barbie, Carrilho tem Barbie, Carrilho tem Barbie”. É Remédio Santo!

Tratado o físico, há que ser muito disciplinado nas atitudes, na linguagem corporal e nas verbalizações. Se fôr apanhado a tirar-lhe as medidas ou a olhar derretido para as covinhas que se formam nas suas bochechas rosáceas quando sorri, todo o plano cai por terra. Focus, ervilha, Focus!

Ser de uma frieza cortante, mas educado, resulta quase sempre. A partir de agora, confiança zero. Um acenar com a cabeça chega e sobra, nada de sorrisos extemporâneos.

Cíume. O meu fertilizante de eleição. De preferência com uma colega de profissão que seja generalizadamente considerada muito pouco interessante. Muita risota, uma mãozinha no ombro, piscadelas de olho, cumplicidade infantil. Convém não abusar pois não queremos que o “isco” se apaixone por nós. Podemos sempre alegar que é um dano colateral desta “guerra” mas não estamos no negócio de partir corações gratuitamente (só a quem o merece).

Outra hipótese é pedir a amigas de confiança para irem ao ginásio com vocês. Aí podem esticar a corda mais um bocadinho. Palmadas no tutu, abracinhos, gargalhadas sonoras, e até mesmo apontar na direcção da Mamífera e soltar umas risadas efeminadas.
Se não tiverem amigas, levem uma irmã, uma prima, uma mãe boazona de peitaça firme (Oh, não sejam assim, pode nem ser a vossa). A única alternativa fora de questão é ovelhas e/ou bonecas insufláveis. Nunca compreendi bem porquê mas as ervilhas fêmeas não têm qualquer sentimento de cíume relativo a objectos inanimados, só de repulsa (à excepção talvez de uns sapatinhos de marca ou umas sandalochas retro-cool)

Tudo isto deve ser suficiente para deixar a Mamífera de rastos (espero eu!). Vai ficar completamente baralhada e gastar horas infindáveis a apertar a pele à procura da celulite e a pôr toneladas de cremes.

Em último recurso pode-se sempre largar a bomba atómica. Nunca tomem esta decisão sózinhos, reunam com o conselho de estado das vossas vidas e oiçam atentamente as opiniões dos anciães. Isto é um assunto muito sério, um acto de crueldade sem paralelo.
Inclusive, tive muitas dúvidas éticas, morais e filosóficas em publicar isto no espaço cibério, mas aqui vai: aproximem-se do alvo com naturalidade, cheirem ruidosamente (como se estivessem a “snifar” cenas que fazem taquicárdia, mas utilizando ambas as narinas), digam “que cheiro tão estranho, que pivete!” enquanto fazem um esgar de náusea (que pode, e deve, ser treinado previamente em frente ao espelho), façam uma pequena pausa para aumentar a intensidade dramática do momento e perguntem na voz mais inocente do mundo “Estás menstruada?”

Friday, June 22, 2007

O Ginásio (III) – Ervilha Contra-Ataca



Nem imaginam o que me aconteceu! Estava eu à entrada do ginásio numa luta titânica com a máquina das senhas pois queria ir à aula de step, quando vindo do nada, qual gueixa que não anda mas flutua, apareceu um dos comerciais que disse:

- Ó Sô Dôtor com que então tem um blog, hein?
Olhei para os lados na vã esperança de que ele não estivesse a falar comigo, mas estávamos sózinhos.
- Eu ?!?! – retorqui fazendo aquela expressão de virgem ofendida inocente que aprendi só de observar jogadores de futebol prestes a receber o cartão vermelho.
- Sim, Senhor! – respondeu de forma arrastada – mas não se preocupe, que eu tenho uma proposta para si.
- Bem, nesse caso, eu não confirmo, nem desminto
- Se o Sô Dôtor se puder comprometer a continuar a publicitar discretamente o nosso health club estou autorizado a oferecer-lhe uma mensalidade grátis.

Depois de um milisegundo de indignação, “Este tipo pensa mesmo que vou vender a minha alma ao diabo por uma mensalidade? Quem é que ele pensa que sou? Me Je Moi sou o Ervilha Albina, licenciado pela farinha Amparo e com distinção!”, retorqui:
- E que tal um pacote de 20 aulas individuais com a Mamífera?

O seu rosto abriu-se num sorriso rasgado, meio caminho já estava andado, só faltava o código postal. Depois de uma árdua negociação, em que puxámos às nossas costelas árabes, lá chegámos a um acordo: 5 aulas individuais de Mamíferagem (neologismo ervilha), 2 toalhas durante 6 meses, um dos cacifos exteriores durante 3 meses, 15 dias de mensalidade grátis e uma cláusula de confidencialidade recíproca.

Enquanto me dirigia para o balneário passei pela caixa multibanco, pela Playstation, por inúmeros plasmas e LCDs, pelos elevadores, pelas máquinas de sumos e pelos maravilhosos painéis decorativos com imagens de ilhas tropicais desertas, de areia branca e mar transparente. No avançado sistema sonoro, super hi-fi, passava a Shakira (que é de um país chamado Colombo – pista discreta nº1) e, nesse momento, pensei para com os meus botões: “Sou um privilegiado, estou no MELHOR HEALTH CLUB DO MUNDO”. Já vos disse que podem ter uma segunda toalha? Sim? E de como os cacifos são espaçosos?

Lá fora brilhava o Sol (pista discreta nº2) e eu, nem sei porquê, lembrei-me dos Incas (pista discreta nº3).

Chegado ao magnífico balneário comecei a cogitar como é que o comercial tinha, em tão curto espaço de tempo, dado com este meu blog. Só podia ter sido o meu cunhado, essa boca de trapos!
Ele é uma pequena celebridade aqui no ginásio, não no sentido “Caras”, “Hola!” ou “Nova Gente” do termo, mas mesmo assim ao nível de um “Jornal da Paróquia da Nossa Senhora do Amparo de Benfica”, de uma “Ana” ou, pelo menos, de uma nota de rodapé no “Crime”.

O Malandro tinha tentado entalar-me, mas eu agora já tinha tantas toalhas quanto ele!
E muito mais importante que isso, tinha a Mamífera na minha mira telescópica de predador da horta! Senti-me que nem um ervilheão, um verdadeiro Rei das Leguminosas! Finalmente tinha planos para o futuro, tinha fantasias platónicas, tinha sonhos de felicidade.

“Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e que sempre que o Ervilha sonha
o mundo pula e se esmifra
como ervilha colorida
entre as mãos duma Mamífera
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá
Lá Lá Lá Lá Lá Lá Lá"

M.Freire/A.Gedeão adaptado/devassado por E.Albina

Wednesday, June 20, 2007

O Ginásio (II)


A Mamífera da camisola laranja apanhou-me mesmo quando me ia a esgueirar sorrateiramente entre a máquina dos gémeos e a dos peitorais. Estava com uma bandana no cabelo o que ainda a fazia parecer mais jovem e apetitosa. Fiquei logo afogueado, cheio de afrontamentos menopausicos, com a ideia de ir para trás do biombo com ela.


Até tive de me concentrar, passar dos zero ao zen em 6 segundos, para não ficar de tenda montada, ou verdade seja dita, na minha idade, para não ficar com a bandeira a meia haste. É que com os meus micro calções dos anos 80 daria mesmo uma grande bandeira! A ervilha iria parecer um pionés!


Os mais novos podem não saber, mas na altura as roupas de desporto eram tão pequenas e justas que os rapazes nem precisavam de enfiar embalagens de algodão hidrofilo, nem meias, nem hamsters vivos para aumentar o volume e/ou os movimentos peristálticos da coisa.


Injusto? Não acho. Vocês é que começaram com os wonderbra e afins. Isto é só uma resposta tipicamente masculina, um desenrascanço à MacGyver, fácil, barato e, com alguma sorte, pode dar milhões. Bom, mas agora não vou falar de espermatozóides.


Voltemos à Mamífera que disse:
- Boa tarde senhor Ervilha, com que então por cá?
Normalmente irritam-me as pessoas que chafurdam no óbvio, mas a menina era tão mamífera, tão mamífera que eu retorqui com um sorriso aberto:
- É verdade, cá estamos e que dia tão bonito!
- Hoje, estou com tempo, se quiser posso fazer-lhe uma avaliação completa – ao mesmo tempo fez um gesto com a cabeça na direcção do biombo, o que causou uma grande tremedeira nos meus joelhos.
- Deixe estar. Não é preciso – respondi com uma voz sumida e de olhos esbugalhados.
- Pelo menos diga-me qual a sua motivação, o seu objectivo, é perder uns quilitos? – inquiriu enquanto apontava para a minha barriga perfeitamente curvilínea de ervilha adulta.
- Prefiro não dizer - não estava nada inclinado a confessar que me encontrava ali para ver as ervilhas jovens, suadas, ofegantes, vaidosas, de abdómens ao léu , de marmelos aos saltos a fazerem cenas dolorosamente eróticas naquelas máquinas de abrir e fechar as pernas.
- Ora, ora, não é preciso ter vergonha. Nós aqui estamos habituados. È para queimar calorias? É para se sentir bem? È para trabalhar algum músculo específico? – perguntou mexendo as sobrancelhas de forma trocista.


Um músculo? Estaria eu a imaginar coisas ou a Mamífera flirtava com quantos dentes tinha? Não fora o meu pequeno cérebro estar directamente ligado ao meu intestino grosso sem passar pela casa de partida, e o biombo teria vindo abaixo. Em vez disso balbuciei algo como “óó” e corri para a casa de banho mais próxima. Foi uma daquelas cólicas violentas que não escolhem nem dia nem hora e, foi assim, que lá acabei por passar meia hora a trabalhar um músculo específico...

Sunday, June 17, 2007

O Ginásio



Já tenho um telemóvel, já tenho um berloque e agora dei mais um passo no lento, mas inevitável, processo de decadência da classe meia de idade média.

Quando era fresco, era mais dos estilo de ir com as marias do que uma “Maria vai com as outras”. Com o passar do tempo a energia esvai-se e ir quentinho no meio do rebanho não custa nada. Agora ficava aqui bem uma piada de bestialidade, ou, no mínimo, dissertar sobre pura lã virgem, mas como a procissão ainda vai no adro não quero afugentar os (e)leitores do centro.

Esse pequeno passo para a humanidade foi inscrever-me num ginásio. Aí há uma vintena de anos que não punha os pés num e senti-me logo que nem peixe fora de água. Parecia que tinha estado preso por causa daquele pequeno incidente na praia do Osso da Baleia ou que tinha sido abduzido (neologismo ervilha) por alienígenas e largado na terra duas décadas depois.

Para começar aquilo, aparentemente, nem é um ginásio, é um health club. Ora, como é um club é-se membro, porque ser sócio como no videoclube ou no Glorioso cheira a proletariado. Verdade seja dita que, pelo menos, não nos dão nem uma X-Box, nem um kit chantagem.

Depois é tudo em estrangeiro: é personal trainer, é cross-trainer, é body balance, é body combat, é body pump (confesso que andei uns tempos entusiasmado a pensar que este último envolvia muito trabalho pélvico mas afinal é com halteres).
O que é feito dos espaldares, das bolas medicinais, da mesa alemã, da ginástica de manutenção, do mini-trampolim, das meninas da ginástica rítmica (voltem por favor, estão perdoadas, mesmo as duas que me arranhavam os lábios com os buços farfalhudos e em simultâneo) ?

Os balneários parecem casas de banho de hóteis de luxo. Há televisores embutidos nos espelhos, cacifos, secadores de cabelo, sauna, toalha e gel de banho à borla, banho turco, balança, massagista, urinóis bem cheirosos e sem graffiti e até, pasme-se, uma maquineta infernal para a dondocaria (neologismo ervilha) secar os fatos de banho!
Não se faz! Assim o pé-de-atleta entra em vias de extinção! Onde estão vós estrados de madeira podre, sanitas sem privacidade e sem papel, água gelada do duche, ganchos para a roupa, palmadinhas nas nalgas dos camaradas (eh.. se calhar estou a fazer confusão e esta parte foi na tropa).

Voltemo-nos para ginásio propriamente dito. Se calhar nem se chama assim. É capaz de ser healthy workout platform, anorectic heaven ou show me your abs and I’ll show you my hairy gluteus (entretanto já perceberam que aqui o ervilha é bi, ou neste caso, o ervilha é pea).
Há dezenas de máquinas, centenas de espelhos, milhares de monitores e personal trainers todos vestidinhos de laranja PPD, e o meu favorito, um bebedouro de água refrigerada. Verdade, verdadinha! Seja eu cego, surdo, mudo e verde como uma ervilhinha!

No primeiro dia, cheguei eu todo janota com os meus tenis Sanjo, soquetes Coq Sportif, calções Patrick e t-shirt justa do Naranjito e fui logo interpelado por uma menina da JSD que me disse que eu tinha direito a uma avaliação grátis, que era só dirigir-me atrás do biombo ao fundo do ginásio.
A miúda era um espanto. Nem vou descreve-la porque senão perco o fio à meada. Mas eu desconfiei, afinal de contas tenho dois dedos de testa, faço fotossíntese há muitos anos e tenho um amigo que ficou sem um rim numa situação similar (eu não vou dizer quem é mas ele escreveu para http://aquintacoluna.blogspot.com/ durante quatro anos e as suas iniciais são “LR”).
Por outro lado, chamem-me antiquado mas eu não vou para trás de biombos no primeiro encontro. Beber um sumol de ananás do mesmo copo com duas palhinhas ou dizer “Estás tão bonita hoje, lavaste o cabelo?” ainda vá que não vá, agora biombos já acho de mau gosto. Só faltou dizer-me “Ó ervilha albina deixa-me ser a tua vagem”...

Fugi dela num ápice e embrenhei-me no surreal e fascinante mundo do elemento humano do ginásio. Ai minha Nossa Senhora do Rosário de Fátima! Nem a Alice e as maravilhas, nem o estranho do Heinlein se sentiram assim.
Toda a gente tem tatuagens, toda a gente se olha ao espelho, toda a gente tem i-pods, toda a gente bebe red bull, toda a gente tem corsários de marca, toda a gente tem soutiens desportivos, toda a gente tem uma toalhinha para não deixar suor nos aparelhos, toda a gente é elegante, toda a gente é musculada, toda a gente é bronzeada, toda a gente é depilada, toda a gente tem piercings e pior que tudo isto, qual crime lesa-majestade, toda a gente tem ténis pretos e ninguém tem meias brancas.

Por estas e por outras que ficarão para segundas núpcias “post”-ais quando me perguntam pelo ginásio eu respondo numa só palavra: mas-que-grande-paneleirice!


PS: Quando eu ia com as marias era gratuitamente
PS2: Desculpem-me a “private joke” do dador involuntário do rim (mas ele merece)