Saturday, September 22, 2007

Fruta (Parte II) – A Dona Dina


A princípio nem me conseguia aperceber da profundidade do golpe pois o sangue que brotava inesgotável impossibilitava-o. Segurei o dedo entre o indicador e o polegar da mão direita e fui até á casa de banho, deixando um rasto de vermelho vivo viscoso atrás de mim.

Com a água corrente vi algo que podia ser o osso. Não pensei muito no assunto, tinha outras prioridades naquele momento. Estava com imensas dificuldades em conseguir fazer fosse o que fosse só com uma mão. Lá tirei a água oxigenada do armário e um rolo de gaze e decidi ir tocar à porta da vizinha.

A pobre Dona Dina, que esticou o pernil o ano passado (que Deus a tenha), abriu a porta de forma célere. Mal comecei a expôr a situação, vi-a ficar muito pálida, a revirar os olhos e, quando dei por isso já estava a ampará-la e a deitá-la no chão do hall inanimada.

Era miúdo e não tinha muita força nos braços pelo que durante alguns momentos fiquei imobilizado por debaixo dela. Felizmente que nos Setenta as casas ainda tinham alcatifas e não foi desconfortável de todo. Também não foi sexual, pois a Senhora era um frasquinho (que Deus a tenha) e já na altura conhecia a regra de que só é permitido abusar de uma Senhora em situações similares se se estiver estado a beber shots de tequila em conjunto (Nota do Escriba: um grande beijinho para ti minha querida e lamento que passados estes anos todos tenhas de descobrir a verdade desta forma).

Depois de me libertar, soltei um suspiro sentido e exclamei “Ai, o caraças, Ai, o catano, isto não está a acontecer!”. Reparei que já havia sangue pela D. Dina toda, bem como na bela da alcatifa amarelo torrado de pêlo curto. Comecei por lhe falar numa voz normal, depois gritei-lhe e finalmente desatei a dar-lhe estalos (nunca tinha contado esta parte a ninguém). Ainda respirava, mas pouco mais. Fui até à cozinha e enchi um daqueles copos de plástico verdes de meio-litro da Tupperware.

Regressei ao hall e despejei-lho na cara. O copo. Tornou a si assarapantada, ao bom estilo da Uma Thurman com a injecção de adrenalina no coração no Pulp Fiction. A coitadinha parecia uma barata tonta (que Deus a tenha). Primeiro pensou que se estava a afogar, depois que o sangue era dela e, finalmente, fez uma segunda tentativa de desmaiar.

Fui firme e dei-lhe instruções claras e simples. Tesoura. Adesivo. Com a gaze entre dentes e a água oxigenada debaixo do braço arrastei-a até á sua própria casa de banho. Tentou convencer-me a chamar o 115. Expliquei-lhe que não era possível, que estava fora de questão, uma vez que as meninas brasileiras vinham a caminho. Era perfeito. Deus era amigo, escrevia direito com dedo cortado.

(continua)

4 comments:

Constança said...

Pobre senhora!

Beijo, oh Ervi, o sangrento.

Poisoned Apple said...

Água oxigenada? És um perigo, só fazes asneiras! :P

Ervilha Escriba said...

Constança,

É verdade (que Deus etc,etc)

Beijo


Bela Adormecida,

Em 1979 só havia água oxigenada e álcool, e este último arde como tudo, era praticamente a pré-história! :P

Anonymous said...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel