Sunday, June 17, 2007

O Ginásio



Já tenho um telemóvel, já tenho um berloque e agora dei mais um passo no lento, mas inevitável, processo de decadência da classe meia de idade média.

Quando era fresco, era mais dos estilo de ir com as marias do que uma “Maria vai com as outras”. Com o passar do tempo a energia esvai-se e ir quentinho no meio do rebanho não custa nada. Agora ficava aqui bem uma piada de bestialidade, ou, no mínimo, dissertar sobre pura lã virgem, mas como a procissão ainda vai no adro não quero afugentar os (e)leitores do centro.

Esse pequeno passo para a humanidade foi inscrever-me num ginásio. Aí há uma vintena de anos que não punha os pés num e senti-me logo que nem peixe fora de água. Parecia que tinha estado preso por causa daquele pequeno incidente na praia do Osso da Baleia ou que tinha sido abduzido (neologismo ervilha) por alienígenas e largado na terra duas décadas depois.

Para começar aquilo, aparentemente, nem é um ginásio, é um health club. Ora, como é um club é-se membro, porque ser sócio como no videoclube ou no Glorioso cheira a proletariado. Verdade seja dita que, pelo menos, não nos dão nem uma X-Box, nem um kit chantagem.

Depois é tudo em estrangeiro: é personal trainer, é cross-trainer, é body balance, é body combat, é body pump (confesso que andei uns tempos entusiasmado a pensar que este último envolvia muito trabalho pélvico mas afinal é com halteres).
O que é feito dos espaldares, das bolas medicinais, da mesa alemã, da ginástica de manutenção, do mini-trampolim, das meninas da ginástica rítmica (voltem por favor, estão perdoadas, mesmo as duas que me arranhavam os lábios com os buços farfalhudos e em simultâneo) ?

Os balneários parecem casas de banho de hóteis de luxo. Há televisores embutidos nos espelhos, cacifos, secadores de cabelo, sauna, toalha e gel de banho à borla, banho turco, balança, massagista, urinóis bem cheirosos e sem graffiti e até, pasme-se, uma maquineta infernal para a dondocaria (neologismo ervilha) secar os fatos de banho!
Não se faz! Assim o pé-de-atleta entra em vias de extinção! Onde estão vós estrados de madeira podre, sanitas sem privacidade e sem papel, água gelada do duche, ganchos para a roupa, palmadinhas nas nalgas dos camaradas (eh.. se calhar estou a fazer confusão e esta parte foi na tropa).

Voltemo-nos para ginásio propriamente dito. Se calhar nem se chama assim. É capaz de ser healthy workout platform, anorectic heaven ou show me your abs and I’ll show you my hairy gluteus (entretanto já perceberam que aqui o ervilha é bi, ou neste caso, o ervilha é pea).
Há dezenas de máquinas, centenas de espelhos, milhares de monitores e personal trainers todos vestidinhos de laranja PPD, e o meu favorito, um bebedouro de água refrigerada. Verdade, verdadinha! Seja eu cego, surdo, mudo e verde como uma ervilhinha!

No primeiro dia, cheguei eu todo janota com os meus tenis Sanjo, soquetes Coq Sportif, calções Patrick e t-shirt justa do Naranjito e fui logo interpelado por uma menina da JSD que me disse que eu tinha direito a uma avaliação grátis, que era só dirigir-me atrás do biombo ao fundo do ginásio.
A miúda era um espanto. Nem vou descreve-la porque senão perco o fio à meada. Mas eu desconfiei, afinal de contas tenho dois dedos de testa, faço fotossíntese há muitos anos e tenho um amigo que ficou sem um rim numa situação similar (eu não vou dizer quem é mas ele escreveu para http://aquintacoluna.blogspot.com/ durante quatro anos e as suas iniciais são “LR”).
Por outro lado, chamem-me antiquado mas eu não vou para trás de biombos no primeiro encontro. Beber um sumol de ananás do mesmo copo com duas palhinhas ou dizer “Estás tão bonita hoje, lavaste o cabelo?” ainda vá que não vá, agora biombos já acho de mau gosto. Só faltou dizer-me “Ó ervilha albina deixa-me ser a tua vagem”...

Fugi dela num ápice e embrenhei-me no surreal e fascinante mundo do elemento humano do ginásio. Ai minha Nossa Senhora do Rosário de Fátima! Nem a Alice e as maravilhas, nem o estranho do Heinlein se sentiram assim.
Toda a gente tem tatuagens, toda a gente se olha ao espelho, toda a gente tem i-pods, toda a gente bebe red bull, toda a gente tem corsários de marca, toda a gente tem soutiens desportivos, toda a gente tem uma toalhinha para não deixar suor nos aparelhos, toda a gente é elegante, toda a gente é musculada, toda a gente é bronzeada, toda a gente é depilada, toda a gente tem piercings e pior que tudo isto, qual crime lesa-majestade, toda a gente tem ténis pretos e ninguém tem meias brancas.

Por estas e por outras que ficarão para segundas núpcias “post”-ais quando me perguntam pelo ginásio eu respondo numa só palavra: mas-que-grande-paneleirice!


PS: Quando eu ia com as marias era gratuitamente
PS2: Desculpem-me a “private joke” do dador involuntário do rim (mas ele merece)

8 comments:

Bruno Taborda said...

Boa! Acho que esta foi a melhor até agora... E viva a paneleirice ;-)

Ervilha Escriba said...

Acabas de ganhar um pacote de ervilhas congeladas pescanova!

Anonymous said...

Olá querida.
LR

Ervilha Escriba said...

Olá Linda, estava difícil de apareceres! E eu que andava a deixar isco por todo o lado. Depois em Londres ofereço-te um fish and peas...

Anonymous said...

Partilho a mesma preocupação relativamente à higienização que se pratica por esses Health Clubs. Vergonhoso.Em defesa da saudosa fungaria que proliferava nesses clubes atléticos e clubes desportivos.Em prole da biodiversidade: lutemos pelo retorno de Epidermphyton spp..

ass: mamalhoa (voluntária da associação dos protectores de Epidermphyton spp.)

Anonymous said...

Cara mamalhoa, por acaso não és mulher do josé (malhoa) e mãe da ana (malhoa). Em caso afirmativo por favor sê capa da FHM!

Anonymous said...

as minhas desculpas por só hoje ter lido tão bela prosa. está genial!

Bjos.

tua admiradora (não secreta),

Pea ..... rosa

Ervilha Escriba said...

Obrigada querida, assim escuso de dizer a frase "os meus amigos não me ligam..."
beijinhos
Pea