Friday, August 3, 2007

Magoito - Homem


Passei os Verões da minha adolescência numa aldeia próxima do Magoito, pequena localidade estival a sul da Ericeira e próxima de Sintra. Facto pouco conhecido, ou talvez seja mesmo um mito campestre, é que Salazar tinha lá uma casa de férias, que ainda existe, completa com uma pequena capela e tudo.

Para um rapazote citadino como eu, o contraste não podia ser maior. A princípio parecia que no Magoito não havia nada para fazer e que a estranha decisão dos meus pais em abandonarem o Algarve e o sul de Espanha em favor do enfado saloio era uma crueldade absolutamente desnecessária. Era o meu Gulag, numa altura em que nem sabia que os Gulags existiam.

A coisa mais emocionante que por lá havia era um casal que vivia junto sem ser casado. Pensei que iria passar o Verão à beira estrada a contar os tractores a circular devagar, mas a pouco e pouco comecei a adaptar-me e a descobrir os prazeres do campo.

Após um workshop instantâneo, com uns moços nativos, aprendi a “andar à chinchada”. Não se trata de um passo de dança, mas sim de pequenos furtos de fruta, em especial, uvas e melancia. De quando em vez, quando o dono do terreno visado dava pela nossa presença, a coisa tornava-se deveras emocionante. Não era preciso bungee jumping, aquilo dava uma descarga de adrenalina pura e dura e nem era muito perigoso. O pior que aconteceu foi o “Ti” Tomás ter partido a cabeça do Afonso com o cabo de uma enxada. O Afonso chorou que nem uma Madalena, mas nem precisou de levar pontos. Numa idade em que o número de pontos era directamente proporcional à importância social da pessoa, escusado será dizer que nunca mais falámos com o Afonso. Anos mais tarde encontrei-o já toxicodepente e fiquei a matutar se, de alguma forma, poderia ter uma quota parte de responsabilidade no sucedido.

Foi lá que amei a minha primeira bicicleta “pasteleira”. Usava-a para ir a todo lado, éramos inseparáveis e até lhe chamava “A Tornado” pois na altura era um admirador incondicional do Zorro. Chegava a fazer os 7 quilómetros que me separavam de Sintra só para ir até às traseiras da Piriquita e esperar que me dessem travesseiros, quentinhos e grátis. Uma vez que não tinha licença, passava a vida a fugir à GNR. Tive muita sorte em nunca ser apanhado, as estórias de horror de sevícias às mãos destes agentes da autoridade abundavam e eu não quereria descobrir da forma mais dolorosa se eram, ou não, verdadeiras.

Outro grande amor foi a espingarda de pressão de ar que o meu avô materno me emprestou para sempre. A fiel “Flóber” como ele lhe chamava. Com ela chacinava candeeiros públicos, garrafas vazias e latas de coca-cola. Com ela fui à minha primeira “caçada” em grupo. Depois de horas de espera por pardais mais inteligentes do que todos nós em conjunto, desconfortavelmente sentados em pedras e parcamente camuflados pela vegetação natural, o Mané aborreceu-se e desatou aos tiros ao Zico por este ter tossido. O Pipo entusiasmou-se com a coisa e foi um festival de chumbinhos a zunir no pinhal.

Foi nesse dia que me fiz um homem. Levei um tiro à queima-roupa na coxa direita que graças à ganga não penetrou a carne. Doeu-me como o caralho. Não há outra palavra, vernácula ou não, para descrever o dilacerente contacto entre a minha pele de menino bem e o pequeno projéctil voador. Eu, que já tinha sido circuncidado a sangue frio, dois anos antes, e que achava conseguir suportar todo o tipo de dor física possível e imaginária, tive de cerrar os dentes até não sentir o maxilar, fechar os punhos cravando as unhas nas palmas das mãos e suster a respiração durante largos segundos, para logo de seguida libertar o “AAAHHHH!!” mais aterrador que alguma vez ouvi da vida, que à falta de melhor, teve o condão de assustar todos os pardais num raio de um quilómetro, e não eram poucos.

Depois, não tugi nem mugi. Contive as lágrimas e olhei para o Mané, o atirador fortuito, que tremia que nem varas verdes e choramingava “Mendel, por favor, não contes ao meu pai, desculpa, desculpa, não lhe contes, não lhe vais contar, pois não?”. Nem lhe respondi, virei as costas, entreguei a minha Flóber ao Zico com instruções para zelar por ela como se da sua própria vida se tratasse e arrastei-me de perna às costas, durante três longos quilómetros e meio de caminhos de cabras ladeados por muros de pedras manualmente empilhadas, até São João das Lampas onde ficava a farmácia mais próxima.

No dia seguinte era o líder do grupo. Sem ter tido de levar um único ponto mas com a enorme vantagem de ser a única pessoa no mundo que eles conheciam que já tinha levado um tiro. A minha primeira medida foi escorraçar o Mané, não por me ter dado um tiro, nem sequer por ter desatado a chorar, mas por se ter preocupado em primeiro lugar com as consequências que o evento teria para ele, em detrimento do meu estado de saúde. Isso e ter, sequer, colocado a possibilidade de eu poder ser um bufo, um chibo, um queixinhas da pior espécie. Até aí éramos irmãos, tínhamos cortado dedos e feito um juramento sagrado com gotas de sangue. A partir daí nunca mais lhe falei.

*****

Em míudo cruzei-me, posteriormente, várias vezes com ele naqueles arrabaldes de nenhures; fixava-o sempre nos olhos, mas nada tinha a dizer. Em adulto não tornei a encontrá-lo em carne e osso, embora o veja ciclicamente na televisão pois é admnistrador de uma grande empresa do ramo dos vinhos. Como a minha mãe sempre me disse: “A classe não se compra, ou se tem ou nada a fazer”. Tens toda a razão mamã. E digo-te mais: “Os colhões no sítio também não, ou estão lá, ou podes esquecer”.

Fotografia da Praia do Magoito: João Domingues

13 comments:

SF said...

Magoito, grandes férias passei lá na minha juventude... foi lá que comecei a fumar... não cigarros que era coisa que cheirava mal mas os belos pés das armérias que na altura abundavam nas escarpas das falésias.

ahhh bons velhos tempos

SF nostálgica

Mané Verde Tinto said...

Ainda hás-de levar o segundo tiro. E não vai ser de pressão de ar.

Ervilha Escriba said...

SF,
Não tinha ideia nenhuma! Alguma vez falámos sobre o Magoito? Se calhar por isso é que "a tua cara não me era estranha!!" :D

Penso que o Magoito vai ser, pelo menos, uma trilogia. Se resultou bem com o senhor dos anéis, porque não no meu blog?

Mas nunca sei ao certo o que é que a ervilha que há em mim vai decidir.

Também foi lá que comecei a fumar. Coisas que cheiravam bem, digamos assim...

Eu acho que para acompanhar a tua nostalgia (momentânea, espero) ficava bem ouvires o "Dunas" dos GNR...

Ervi, antigo jogador do MTBA

Ervilha Escriba said...

Caro Mané Verde Tinto,
Tu não existes meu querido. És só uma voz dentro da minha cabeça. E agora vou tomar o comprimido. Adeus.

Anonymous said...

Olha: gostei muito deste bocadinho.Tanto exercício físico q fazias qdo eras teen...:andavas de bicicleta, ias para o campo curtir natureza, caçavas,corrias, leváste com um tiro ( sempre fantasiei em conhecer um homem q tivesse levado um tiro, e afinal.....tu tão perto ..)Vejo que te conheci numa época já muito sedentária....maldita TV.

Continua. Estou a gostar de te conhecer!
;-)
mhmalhoa

Ervilha Escriba said...

mhmalhoa,

Não confundas a base real auto-biográfica com a obra ficcionada!

Por exemplo, houve de facto um pequeno incidente com um tiro mas:
a) eu era o atirador
b) a vítima era uma rapariga
c) usei uma cabeça de malmequer em vez de chumbo
d) ela posteriormente foi minha namorada

Moral da história: foi um caso clássico de "quanto mais me bates..." e a realidade ultrapassa sempre a ficção

Ervi

PS: É que em minha casa havia televisão a CORES! ;-)

Luís Santos said...

Estou a gostar destes posts sobre o Mag8. És do tempo do Manecas ou nem por isso?
Só para me situar em termos etários.
Cumps.

Ervilha Escriba said...

Olá Luís,

Como na anedota, o nome "Manecas" não me é estranho.

Passei lá os verões de 77 a 87 e a minha base era no Arneiro muito perto do Café Clemente.

Se quiseres manda mensagem para ervilh@gmail.com e poderei ser mais específico.

Anonymous said...

podes indicar a casa onde o Salazar passava férias? algum ponto de referência... é que existem mais do que uma com capela.
-também adepta da praia do MTBA, pelo lado do T-

Anonymous said...

gostei muito da tua frase de rodapé.
digamos que é uma frase unissexual.
-a tb adepta do MTBA-

Ervilha Escriba said...

Olá adepta do MTBA,

Se fores do centro do Magoito em direcção à praia, tens de virar à esquerda antes do Pinhal, depois há umas ruelas estreitas e confusas, mas o objectivo é chegares a uma estradinha que é, grosso modo, paralela à principal de onde saíste mas a uns 100/200m de distância. A casa estava pintada de vermelho escuro/ cor de vinho.

Como não passo lá há uma dúzia de anos pode ser que nem casa, nem as minhas referências existam...

Ainda bem que gostaste da piada de rodapé, esteve, aliás, na origem do nome deste blogue.

Volta sempre,

Ervi, adepto do MTBA pelo lado do A

Tita said...

Tantas ervilhas!!!!
Mas esta é "nativa", lol, e também não mora longe de Magoito...

Para os meninos da cidade estas coisas do campo soam sempre a exótico, não é?! ;)

Mas gostei de ler o post, hoje em dia os putos de lá já só se divertem a mostrar as Lc's e as pranchas de body-board! :(

C- Beams said...

Eu li bem? Chacinavas latas de coca-cola?! Estou em choque.