Sunday, August 19, 2007

Viagens No Tempo Presente


Aprendi nos últimos anos a deixar de ser eu, para voltar a ser um outro eu. Quando eu era mais jovem, a minha mente controlava a minha vida. O corpo era um invólucro, um meio de transporte. O corpo executava aquilo que a mente determinava.

Mesmo quando eu era mais jovem, era um ser esquisito e estranho, quando em comparação com os outros seres humanos. Porque as pessoas, em geral, não pensam. Não é a mente que comanda as suas vidas. Pelo contrário, deixam-se arrastar pela Senhora Vida.

Não determinam o curso da vida, simplesmente agem sem pensar. Ou seguem a maioria. Ou seguem o que é “bem”. Ou agem por medo daquilo que “os outros possam pensar”. Ou agem porque... porque sim.

Sempre vi estas pessoas como um fenómeno antropológico extremamente interessante. Não é raro que se consiga prever o que vão fazer. Por outro lado, é muito raro observar uma surpresa em relação ao que antecipávamos.

A Vida não lhes ensina nada. São várias as razões. Primeiro, não guardam memória do seu próprio passado e, como tal, é-lhes impossível confrontar o que foram com o que são.

Em segundo lugar, não se conhecem a si mesmos, imaginam um eu que lhes traz conforto, às vezes até com alguma presunção.

Não conseguem aprender com a Vida, com as suas decisões e respectivas consequências porque estão longe de serem rigorosos e objectivos consigo mesmos, porque não pensam e não têm passado.

Só têm presente e aspirações. Não é propriamente um futuro, porque não sabem onde a Vida os vai levar. É verdade que o Homem não é um ser capaz de antecipar o amanhã. Mas, pensando com rigor e sem preconceitos, cada pessoa pode determinar aquilo que quer.

É precisamente aquilo que cada pessoa quer, é isso que está na base do futuro. Depois há mais factores. A coragem, principalmente no que se refere a ignorar o que “os outros vão dizer”. A capacidade de agir de acordo com os seus princípios. Os seus, não os princípios da maioria. A perseverança também conta.

Naturalmente não sou nem fui um ser sem erros e falhas gigantescos. Mas, como, quando era jovem, a mente se sobrepunha ao poder do corpo, aprendi alguma coisa com a Senhora Vida.

Agora, que não sou tão jovem, adquiri uma qualidade absolutamente fantástica: o meu corpo é capaz de viajar no tempo.

Hoje posso ter 38 anos, mas amanhã, ou mesmo daqui a um bocado, posso ter 80. A viagem é muito dolorosa, quando se processa no sentido em que a minha idade aumenta. Naturalmente é uma viagem deliciosa como o Amor, quando a minha idade decresce.

Viajo, num ou noutro sentido, conforme o meu corpo manda.

Isto quer dizer que, o meu novo eu, é um ser em que o corpo prevalece sobre a mente. Na verdade há muito pouco que a minha mente possa fazer para evitar, ou pelo contrário, promover uma viagem no tempo.

Continuo a ser uma pessoa esquisita e estranha, mas por razões praticamente opostas: o meu corpo manda, já não é só um invólucro. É o motor principal na minha vida.

O meu corpo viaja no tempo, mas não é acompanhado pela minha mente. Porque a minha mente não aumenta, nem decresce de idade. Na verdade, já nasci com uma mente antiga. Um amigo, muito meu amigo, diz que nasci “madura”.

O aspecto interessante é que o corpo manda, mas isto não quer dizer que a mente obedeça. Não. A mente luta quando a idade física aumenta. Pelo contrário, a mente relaxa quando a idade do corpo decresce.

Como disse antes, se a minha idade física aumenta, a viagem é muito dolorosa. A dor deixa pouco espaço para a mente agir. Tenho aprendido com o Senhor Tempo, a aumentar o espaço para a mente, quando a dor é grande. È um assunto muito interessante e complexo, este da dor versus a mente.

Agora, eu própria sou um objecto interessante,do ponto de vista antropológico. Interessante para mim, claro está. As pessoas à minha volta não sabem que viajo no tempo e, como tal, não têm interesse antropológico em mim. ;-)

Apesar daquilo que fui, quando era mais jovem, há muitas coisas que aprendi com a Vida, que agora não posso aplicar.

O mais importante é que não posso fundamentar o meu minuto seguinte com base no que eu quero, na minha coragem e persistência. E como não sei quando e em que sentido, vou viajar, também não sei quem sou no momento que se vai seguir.

É irónico, não é?

Peggy

Edição: Ervilha

5 comments:

tt said...

Estou "estarrecida"!Este texto/grito de alma, é sem sombra de dúvida a melhor introspecção filosófico que li desde há muito, mas muito, tempo.Revejo-me nele mas nunca tive a capacidade que a Peggy teve de o pôr no "papel". Muito,mas muito bom no seu conteúdo,e da sua capacidade de escrita nem se fala.

quarentão solitário said...

Peggy fiquei emocionado com as suas palavras, sou um homem que liga mais ao espírito do que ao físico, deve ser por isso, que ainda não encontrei uma mulher que considerasse digna de ser minha companheira, mãe dos meus filhos. E não é que hoje, aos 43 anos, encontro num blogue ALGUÉM que me faz estremecer com a sua "abertura". Como posso contactar consigo fora do blogue? Por favor, nâo me deixe pendurado.

Sheik Al Bin Malvaden said...

QS,

Duas de 19 anos e negócio fechado.
Despesas de import/export a seu cargo.

Anonymous said...

Adorei.
Vejo-te aqui, neste texto.
Beijos para ti e parabéns!
mhmalhoa

Anonymous said...

eu quando era mais nova também experimentei, mas depois deixei-me disso... era muito caro