Wednesday, September 19, 2007

Esquentamento


Fim de tarde de Verão no salão nobre Ervilhal, antro caótico de discos, livros, DVDs e outros bens de primeira necessidade, daqueles que um homem vai acumulando no seu castelo ao longo da vida.

O Jeffrey tinha chegado invulgarmente cedo do emprego e aproveitado para um cocktail vespertino e um bato-papo chez Érvi. A Peggy bebia o seu Earl Grey com leite e o tempo corria tranquilo.

Nisto, alguém toca à campainha de forma insistente. “What the fuck ?” pensei eu, quem ousa perturbar a paz do Rei da Horta, Senhor das Ervilhas? Que alma inconsciente teve o desplante para cometer tal acto?

Dirigo-me á porta e olho pelo monóculo. No meu patamar está um homem na casa dos 30 que eu nunca vi. Até aí tudo normal. Fala muito depressa com o inconfundível sotaque açucarado do Português do Brasil. Tudo bem. Mas espera, o gajo está todo nú! Só tem uma toalhinha de mãos com que tenta, sem grande sucesso, cobrir as partes pudendas. Olha que giro, esta é nova. O senhor está numa agitação crescente e vai gritando “Por amor de Deus, me acudam!”, “Minha Nossa Senhora, me acudam”.

Torno ao salão, sem abrir a porta da rua, e relato a original aparição aos meus companheiros estupefactos. Explico-lhes que na melhor das hipóteses é uma nova técnica de marketing da Igreja Maná, da Reino de Deus, ou assim, e que no pior cenário ao abrirmos a porta vamos ser vitímas de uma arrastão doméstico de proporções bíblicas e, com sorte, vamos ser violados repetidamente durante dias e posteriormente enterrados vivos em cimento.

A Peggy e o Jeffrey decidem que eu sou demasiado urbano, cínico, frio e sem compaixão e que é melhor abir a porta. Ainda por cima, têm a presença de espírito para fazerem piadinhas do género “Como a nossa vida sexual tem andado, ser violado(a) até já parece uma excelente ideia”. Eu acho que eles são naives à enésima e que, no mínimo, vou ser esfaqueado enquanto os defendo, num último gesto de nobreza. Pior que isso, imagino-me a ser notícia de abertura do telejornal da noite da TVI ou nota de rodapé nos Morangos com Açucar.

Pelo sim, pelo não, vou buscar o taco de beisebol. É de plástico, mas parece verdadeiro. Despeço-me da Micas, a gata, e asseguro-lhe que todos os meus bens transitarão para ela. Sim, incluindo os sofás que ela vai poder arranhar a seu bel-prazer.

Abrimos a porta. O rapaz, já à beira das lágrimas e a hiper-ventilar de forma preocupante, aponta na direcção da porta situada no extremo oposto do corredor, e lá consegue articular “Fogo!”. Eu e o Jeffrey tomamos as rédeas da situação. O duo dinâmico improvisado de bombeiros amadores, um vestido de fato completo e gravata, o outro de cuecas e camisola interior de alças, começa por avaliar a gravidade dos acontecimentos. Fumo há muito, fogo nem por isso. O esquentador está, de facto, para lá de carbonizado e ainda em chamas, mas estas parecem estar a ter alguma dificuldade em passar para os armários da cozinha.

Com uma calma olímpica, debatemos se é melhor com a mangueira ou com o extintor. Não sem fazer um beicinho, deixo-me levar pelo bom senso e anuo que é melhor a segunda opção. O Jeffrey faz as honras da casa e após umas "sprayadelas" que nem deram para aquecer, o fogo está dominado. Setencio que entrámos na fase de rescaldo e há que recuperar a vítima psicologicamente.

*****

O pobre do A. tinha acabado de chegar do Brasil há uma hora para fazer uma pós-graduação em Arquitectura e ia ser nosso vizinho durante uma temporada. Não conhecia ninguém. A casa era propriedade da sua madrinha que só a ocupava um mês por ano. Cansado da viagem, decidiu tomar um duche. Mal poderia imaginar que os senhores do Gás Natural se estavam marimbando para estas situações e que nem se deram ao trabalho de deixar avisos no correio ou debaixo da porta. Não fora a pronta intervenção dos heróis acidentais e o incidente poderia ter assumido contornos mais graves, incluindo, mas não só, o A. ter de fugir para a rua naquela figura e ser preso por atentado ao pudor.

6 comments:

Catarina Morgado said...

Ervi, o nosso herói!

Poisoned Apple said...

Brilhante, meu mangueiras! :)

Anonymous said...

Excelente relato de um facto verídico!

Saliento o heroico companheiro que entrou na casa em chamas de fato e gravata arrastando o extintor e que ia morrendo asfixiado com o pó químico.

J&FFR&Y

Carreira Belém-Amadora(com paragem na Reboleira) said...

Mais engraçado nesta história é que os ex-vizinhos do lado estavam em casa e não deram por nada. Não só seria mias um colaborador como se perdeu a oportunidade do carreirinhas poder contar a sua filha que participou num acto heróico não menos importante que a chegada a Lua pelos Estates...
Muito bem e uma boa homenagem ao nosso simpático A.

Anonymous said...

e vã gastar um vermelhilho em tão pouca chama ? por amor ao meu pai... não habia necessidade

Ervilha Escriba said...

Minhas senhoras,

Mil obrigados!

Jeffrey,

Com que então salientas o "heroico companheiro", hein? Estou a ver,sim senhora.
A Dominatrix faz-te bem! Até perdeste a modéstia (à chicotada, até aposto :)

Carreira,

Com que então o "mais engraçado nesta história" foram vocês, hein? Estou a ver,sim senhora.
A Gravidez faz-te bem! Até perdeste a modéstia (nas aulas de ginástica de parto, até aposto :)

anonymous,

A mensalidade do condomínio é cara, tem de se aproveitar!!!


Ervi