Saturday, September 1, 2007

A Verdade De Um Nome


Tive de apanhar dois autocarros para ir ter a casa da Bé. No dia anterior havíamos andado de mãos dadas pelos corredores estreitos e labirínticos do Centro Comercial Alvalade. Tomei a iniciativa e ela, com sua mão pequena de dedos delgados e unhas microscópicas, não mais largou a minha. Perguntei-lhe se a podia beijar. Aqui não. Em público não. Em vez disso, comemos dois cornetos de chocolate e eu limpei-lhe um bigode de natas com um lenço de papel. Amanhã talvez.

Era o primeiro de Setembro e os pais dela iam trabalhar. Mal tinha conseguido pregar olho. Não que com essa idade seja preciso dormir. O antecipar fantasioso do evento fazia com que estivesse num estado de excitação permanente. Pensei em tratar do assunto e aliviar a tensão mas como gostava mesmo da Isabel, tal ideia pareceu-me profana.

Hoje sei definir melhor o que sentia quando gravitava na sua cercania: paz, tranquilidade e conivência silenciosa. Era diferente das outras. Não digo que não a desejasse carnalmente mais do que qualquer outra coisa no meu limitado mundo da altura, mas era o meu cérebro que mais dela precisava.

Depois de uma das mais longas viagens da minha vida em que todos os semáforos pareciam vermelhos e todas as paragens travessias do deserto, cheguei-lhe à porta.

Quando Eva, a mulher a dias, ma entreabriu, o meu coração agachou-se temeroso de que algo estivesse errado. A Bé materializou-se logo de seguida. É o meu amigo, Eva, eu trato dele, obrigado. Esticou o braço que eu de bom grado aceitei e levou-me para o quarto dela. Sentou-se na cama de madeira branca e deu umas palmadinhas suaves no colchão para que eu fizesse o mesmo.

Eu afogava-me em nervos e ela flutuava num mar de calma. Disse-me que nunca tinha tido um namorado, só tinha brincado aos médicos uma vez com um primo direito quando tinha 4 anos, pedindo-me para ser paciente e lhe explicar como se faziam as coisas. Falava com uma compostura de mulher crescida que só apertava o meu nó na garganta. Gaguejei que sim, claro. Sê meigo. Sim.

Corações de corrida fundiram-se num primeiro beijo que recordarei até ao final dos tempos. A ansiedade esfumou-se, no seu lugar só arrebatamento. Em câmara lenta beijámo-nos nos lábios demoradamente. Nos inferiores, nos superiores, nos cantos.

A Bé entortava um pouco os olhos quando estávamos muito próximos. Ensina-me o linguado. Senti-me a latejar, o pulsar do sangue parecia o tique taque de uma bomba relógio pronta a explodir-me nas calças. Quando as nossas línguas se tocaram apanhámos um choque eléctrico. Literalmente. Rimos muito e voltámos a tentar. A Bé emitia gemidos de prazer que ainda hoje ecoam nas paredes da minha caixa craniana.

Vem para cima de mim. Todos vestidos embrenhámo-nos um no outro, unos e indivisos pela primeira de muitas vezes. Vou tirar a camisola mas não estou preparada para ir mais à frente hoje. A visão dos seus seios adolescentes perfeitos de mamilos pequenos, rosáceos e excitados fez-me sentir tonturas. Seria a minha imaginação ou os meus tomatinhos estavam em chamas?

Corados, desgrenhados, ofegantes e sózinhos no universo, marmelámos horas a fio até que eu comecei a sentir uma dor lancinante nos testículos. Subia-me até ao estomâgo como a mais cruel das azias. Aguentei enquanto pude e depois tive de me acocorar e explicar à Bé, numa voz sofrida, o que se estava a passar. Ela fez um esforço por não se rir e pediu desculpas quando não o conseguiu. Não te preocupes, já volto.

Ouvia-a perguntar: Eva, temos gelo? Nããão? Vozes abafadas e alguma azáfama na cozinha ter-me-iam preocupado não fosse a intensidade das dores requerer toda a minha atenção naquele momento. A Bé apareceu-me com um pacote de ervilhas congeladas já aberto e um pano da loiça na mão e comunicou-me com um ar divertido que não havia gelo. Mais risota. Pedi-lhe para ela se virar e inicei a delicada operação de embrulhar as ervilhas no pano e colocá-lo dentro das cuecas sem despir as calças. Lá o consegui sem evitar, no entanto, que algumas se espalhassem pelo chão. Estavam recobertas com uma fina camada de gelo, tão pálidas que pareciam ervilhas albinas.

Por favor nunca contes isto a ninguém. Claro que não, respondeu acalmando-me e dando-me um dos seus comprimidos para as dores menstruais. Mas vais ver que quando fores famoso e escreveres a tua autobiografia este nosso dia vai dar o capítulo mais lido e citado de sempre. E como se chama o capítulo? Bé? Não, lindo, vai chamar-se Ervilhas Albinas....


Bé, esta é para ti, onde quer que estejas que sejas feliz

7 comments:

Gabor said...

Quem me dera ser ervilhas congeladas!

Pink Lady said...

Lindo! Lindo! Está explicado.

Depois vem cá dizer que a Pink Lady é fracota... Afinal todos temos as nossas ervilhas albinas, não é, Ervi?

Ervilha Escriba said...

Estimada Maçã,

Jamais, em tempo algum, sequer insinuei que sua Excelência era "fracota"!

Fique a senhora sabendo que embora desconheça os termos em português a "pelvic congestion" é comum tanto no homem como na mulher!

No macho conheço as deliciosas expressões em calão: "Blue Balls" e "Lover's Nuts"

Enquanto na fêmea, nem de propósito, se designa por "Pink Ovaries" :D

Mais info em: http://en.wikipedia.org/wiki/Blue_balls

bjs

Ervi

Anonymous said...

Sem dúvida q é um belo hino de ternura às "Bé(s)" que já existiram em nós,mulheres, e às "ervilhas" que já existiram em todos vós, homens.
Muito bem escrito.
Um beijo
mhmalhoa

Ervilha Escriba said...

Querida MHMalhoa,

Obrigado. Ando a ficar doce e mais tenro com a idade, ahaha.

beijocas

Ervi

SF said...

ah doce juventude, da ingenuidade e inocência... à vezes gostava de voltar a ser uma Bé, um beijo roubado, um arrepio pela espinha

Ervilha Escriba said...

A quem o dizes! Eu dispensava era as partes dos "tomates azuis"....