Sunday, July 22, 2007

Os Bons Dias


À semelhança de todos os grandes (aspirantes a) escritores tenho um poiso frequente onde como, bebo e me misturo com o povo, de modo a auscultar a opinião pública in situ e não perder o contacto com a realidade.
Foi lá que descobri a Floribela, o José Castelo Branco, a Madeleine, que o Jorge Sampaio já não é Presidente e que a Clara Pinto Correia escrevia para um tablóide. Como raramente me apetece cozinhar e não gosto de beber em casa, acabo sempre por passar lá uma ou duas horas por dia.

É uma daquelas casas de pasto bem lusitanas, misto de restaurante/ cervejaria/ pastelaria, com comida tradicional portuguesa em doses obscenamente grandes para uma ervilha do meu tamanho e que tem aqueles grelhados paradoxais que são na brasa mas demoram uma eternidade a chegar.

Um dos bons profissionais que lá trabalha é o Sr. Romano. Muito educado, sem ser subserviente, possuí um raro bom senso, uma sabedoria inata para as coisas da vida e é, genuinamente, uma pessoa boa. Eu até acho que o bigode que ostenta não é uma opção estética infeliz, mas sim mais uma demonstração inequívoca do seu profissionalismo exemplar. Afinal de contas quem é não confia num empregado de mesa de bigode?

Há uns dias chegou ao pé de mim e disse:
- Sr. Ervilha, se me saísse o euromilhões nunca mais dava os bons dias a ninguém.

Eu fiquei estupefacto. O dinheiro não muda a personalidade a ninguém. Quase nada muda. Só talvez a proximidade da morte, a iminência do orgasmo ou o milagre de eu ter sido pai de uma criança de cor absolutamente distinta da minha e da da mãe.

- Ó Sr. Romano, não diga uma coisa dessas que eu não acredito.
- Acredite que é verdade! Cinco números e duas estrelas e era certinho! Acabava-se o bom dia para aqui, bom-dia para ali.
- Só pode estar a brincar comigo! Não posso crer que se cruzasse comigo na rua e não me cumprimentasse!

Os seus olhos brilharam, a sua boca definiu-se num sorriso trocista e disse-me com uma satisfação própria de uma criança:
- Não é isso Sr.Ervilha, é que se eu ganhasse o euromilhões nunca mais me levantava antes do meio-dia!

Apesar da infantilidade simplista da piada, soltei uma risada de bom grado. Pensei quão privilegiado era de me deitar e acordar ao sabor do meu corpo, sem stresses, nem despertador e, por uma vez na vida, senti compaixão por aquele homem desconhecido que me trazia as imperiais, o bacalhau, o cinzeiro e o descafeínado, de forma incansável e sempre de sorriso nos lábios, dia após dia.
***

Este texto, que ele nunca irá ler, é-lhe dedicado. A ele, que trabalha seis dias por semana e dez horas por dia, e à assustadora minoria de portugueses que trabalha e nunca se queixa.

5 comments:

LR said...

O bacalhau unido nunca mais será vencido.

Anonymous said...

Se os homens tivessem uma vagina na palma da mão, passavam a vida a apertar o bacalhau

Anonymous said...

Os meus parabéns pelo texto e pelo cumprimento a alguém que merece! HURRA à simplicidade :-)

Ervilha Escriba said...

LR e Anónimo I,
Não assustem as pessoas! Lá porque já tomámos banho juntos e entoámos o "patchouli" em uníssono no liceu não significa que devam andar sempre na piadinha privada a afugentar os meus leitores!

Cara Anónima II,
Já viste que quando tomas os comprimidos o mundo fica logo um lugar muito melhor?
Um Xi-Quac para ti

Carreira Belém-Amadora(com paragém na Reboleira) said...

homenagens são para ser feitas enquanto estão vivos, mas nunca é tarde para as fazer,