Thursday, August 9, 2007

O Ginásio VIII – A Passadeira


Às vezes penso que sou descendente do Nostradamus ou pelo menos primo afastado do Zandinga. Tenho um instinto de prever situações embaraçosas muito antes de elas acontecerem. Acerto quase sempre no verbo e no adjectivo, só falho o sujeito (Nota do Editor: alguém se lembra do predicado? Será que ainda existe? E dos advérbios de modo? Já não são “fashion”? E os favoritos do Ervi, os verbos copulativos? Por onde andam?).

Entrei no ginásio todo lampeiro, com uma andar gingão à Chico Fininho e de sonar ligado na potência máxima. Dei logo pela Martina, já a transpirar profusamente, numa das passadeiras centrais. Para não parecer que sou fácil, como essas ervilhas que andam por aí que vão com tudo o que lhes aparece à frente, perdi para aí um minuto e trinta e sete segundos a beber água, a pesar-me e a ir buscar o meu plano de treino. Depois já não aguentei mais.

Fui para ao pé dela e acenei-lhe com a cabeça. Estas coisas a pouco e pouco tem muito mais piada. Tem é que se estar a pau para que não apareça nenhum Pepe Rápido e a leve embora mesmo de debaixo do nosso nariz, pois isso causa dores insuportáveis nos cotovelos e é uma lesão que dá para meses de psicoterapia fisiátrica.

Pousei a toalha, como toda a gente faz, num dos braços de apoio lateral da passadeira. Estar fisicamente tão próximo dela fazia com que a minha pulsação em repouso atingisse os 125 batimentos por minuto. Se fosse um estilo musical seria house/ trance, mas como sou português de gema seria um Zé Pereira com o seu tambor a rufar furiosamente enquanto curtia a trip de anfetaminas.

Mesmo a suar como se tivesse adormecido na sauna, Martina cheirava divinalmente. Estar apaixonado tem, de facto, de ter uma componente patológica. Que outra explicação existe para se apreciar o odor corporal de uma pessoa com quem nunca sequer se falou? Só se forem as míticas feromonas. Tudo é possível para alguém que até aos doze anos creu que havia glutões nas embalagens de detergente Presto. Porque não? Existirem ervilhas albinas é mais difícil de acreditar e, no entanto, aqui estou eu.

Escolhi um programa de velocidade e inclinação médias e comecei a andar. Ligo sempre a ventoinha uma vez que gosto da falsa sensação de estar a exercitar-me ao ar livre que isso me dá. Quando iniciei a corrida, a passadeira começou a balançar suavemente mas eu nem liguei pois, além do mais, a do outro lado de Martina já estava ocupada por uma senhora de idade que era igualzinha à Cruella de Vil dos 101 Dálmatas.

Enquanto me esforçava para ter a elegância de gazela do Francis Obirah Obikwelu ia deitando o olho à Martina. Não em demasia pois isso seria falta de tacto e também porque tinha medo de ficar com uma erecção e estragar o Discman.

Subitamente a passadeira balançou com tal violência que até parecia estar em pé num barco a remos do lago jardim do Campo Grande. Ao desiquilibrar-me procurei apoio nos braços laterais, o que consegui, mas fazendo com que a toalha caísse no processo. Toalha essa que foi, naturalmente, levada para trás e num acontecimento só possível na vida real ficou encravada na zona onde o tapete dá a volta sob si mesmo.

Esta sequência de eventos fez com que um estridente alarme sonoro disparasse, com que a passadeira parasse de forma instantânea e com que eu, ao ter continuado a correr, desse uma feroz cabeçada no painel frontal e caísse, de seguida, desamparado de costas e a sangrar do nariz.

A minha camponesa de leste veio logo em meu auxílio, tal e qual um São Bernardo Alpino dos desenhos animados, e perguntou-me com genuína consternação: “Você se machucou, cara?”. E a Polónia que era aqui tão perto para ir visitar os sogros. Eu até já tinha fantasiado casar com ela de grinalda na Catedral de Cracóvia, local onde o santíssimo padre João Paulo II considerou ser sepultado.

10 comments:

Anonymous said...

O episódio pede mais, não devia acabar tão abruptamente, ou então, sou eu que hoje estou mais exigente, dormi mal e o meu psiquiatra está a banhos p´ros allgarves

Ervilha Escriba said...

O formato de novela e/ou seriado exige que se interrompa a acção/ narração em momentos importantes de modo a deixar o consumidor viciado.

Em Inglês do Sul existe a expressão "Cliffhanger" que traduzida às três pancadas significa "pendurado no precipício" que descreve de forma perfeita esta situação.

Ervi

MiSs Detective said...

primeira vez aqui.. lololol!!! tou a morrer de riso :)
pÔ, cê não podxi ser assim não! lolol

Ervilha Escriba said...

Cara Miss Detective,

Já te conhecia de vista das "Maçãs". Fico feliz que a tua primeira vez aqui esteja a ser tão boa!

Em breve retribuirei a visita e o comentário!

Ervi

Poisoned Apple said...

Eu também acreditava nos glutões azuis dentro embalagens de detergente!!! Era tão querida... :)

Ervilha Escriba said...

Eu uma vez despejei uma embalagem inteira no chão da cozinha à procura dos glutões....

Ervilha Escriba said...

Mas isso já foi para aí há dois anos e meio... :D

Poisoned Apple said...

Eu fui apanhada a deitar meia embalagem de detergente para fazer espuma num banho de imersão. Já em miúda me armava em Jaqueline Kennedy. A minha mãe deitou-me as mãos a tempo de arranjar a pior urticária de sempre. Não posso é garantir se era Presto ou Omo...

Omo Lava Mais Branco said...

Esta caixinha de comentários está cheia de adeptos do banho de espuma!
:)

miss Arion said...

Caros comentadores voltem à essência do texto e deixem de lado os glutões.O Ervilha merece que o comentem também sobre o tema em si. O poder da publicidade como se vê, tem muita força principalmente nas mentes precoces das criancinhas (isto é um elogio às crianças que existem em todos nós).
VIVA OS GLUTÕES (ups)!VIVA OS BANHOS DE ESPUMA!